Andy Warhol Meets Sunset Blvd.

“Little Joe never once gave it away
Everybody had to pay and pay
A hussle here and a hussle there
New York City’s the place where they said, Hey babe
Take a walk on the wild side
I said, Hey Joe
Take a walk on the wild side”
Em 1950 enquanto a Fox lançava sua comédia dramática “All About Eve” (A Malvada) sobre os bastidores da Broadway, a Paramount lançava a melhor comédia dramática de humor negro sobre os bastidores de Hollywood jamais feita. Sob a direção de Billy Wilder, “Sunset Blvd” (Crepúsculo dos Deuses) é ainda hoje considerado um dos melhores filmes de todos os tempos e, definitivamente, a mais mordaz crítica à fama, ao cruel sistema de estrelas e a quão fugaz e superficial Hollywood pode ser.
Em “Sunset Blvd” William Holden faz um roteirista à beira da falência que não consegue nem pagar as prestações do seu carro. Sem conseguir um único contrato ele está fugindo de cobradores em seu carro quando vai parar, acidentalmente, na entrada de uma mansão aparentemente abandonada em Sunset Boulevard, Hollywood. E de lá ele só sairá morto. Aliás, esse é o início do filme. A primeira cena é William Holden morto em uma piscina. E ele conta sua história em flashback.
Na tal mansão moram Norma Desmond, magnífica e grandiosamente interpretada por Gloria Swanson, e seu mordomo Max, interpretado por Erich Von Stroheim. Stroheim foi um dos diretores de Gloria Swanson quando ela era a grande estrela do cinema mudo. E em “Sunset Blvd” Norma Desmond é uma estrela decadente de filmes mudos que está planejando seu retorno às telas. Ela sonha que Cecil B. De Mille a quer para interpretar “Salomé” que ela mesma está escrevendo. Quando Norma descobre que Joseph (Joe) Gillis é um roteirista desempregado ela o contrata para reescrever seu roteiro. O mordomo a auxilia e a armadilha está feita.
Obviamente Joe vira um gigolô barato ao aceitar as condições de viver naquela mansão, ganhando roupas, status e comida em troca de favores sexuais. Norma vive de ilusões alimentadas por seu mordomo (que na verdade é seu terceiro marido e ex-diretor). As paródias à vida real são incríveis. Gloria Swanson parece interpretar a si mesma em grandiosidade e estrelismo. A certa altura Joe e Norma assitem a um filme mudo (interpretado por Norma, é claro) que foi, na verdade, dirigido por Von Stroheim – “Queen Kelly”, um dos melhores filmes mudos de Gloria Swanson que eu tive o prazer de assistir em cópia restaurada no museu do Louvre, em Paris.
A quantidade de frases inesquecíveis, proferidas por Norma Desmond, é incrível. Quando Joe a conhece ele diz para Norma que se lembra de como ela era grandiosa, “big”! Norma, prontamente, responde, “I’m still big. It’s the pictures that have gotten small!” Ao reescrever o roteiro de “Salomé” que Norma escreveu, Joe pensa em acrescentar algum diálogo, cortar algumas cenas e Norma pergunta a razão dos diálogos, “Whatelse do we need except from my eyes?” Seu ego é tão inflado que ela não percebe sequer sua realidade. Ao final, quando é levada pela polícia, Norma se entrega às câmeras dos jornalistas como se estivesse num set de filmagens, pronta para seu último close up.
Corta. Final da década de 60. Em Nova York Andy Warhol e sua trupe de artistas funda a Factory, uma verdadeira “fábrica” das artes (fotografia, cinema, pintura, música). Ali, na Union Square em Nova York, Warhol estava rodeado de gente como Lou Reed, o grupo Velvet Underground, Paul Morrissey, um monte de travestis como Candy Darling, Holly Woodlawn e uma série de outros “Superstars” (termo cunhado por Warhol). Entre os filmes de Warhol alguns são antológicos e inassistíveis como, por exemplo, “Sleep” onde ele filma o sono de um cara por oito horas. Isso é o filme. Outro, “Empire State” é a fachada do famoso arranha-céu, filmada durante não sei quantas horas. Tem ainda “Blow Job” com a câmera, o tempo todo em close up, filmando um cara quer recebe os “serviços orais” de alguém que a platéia sequer sabe quem é. O filme todo é apenas as reações do tal cara. Em close up.
Um belo dia Warhol e Morrissey notaram um cara que trabalhava como segurança/porteiro da Factory. Era Joe Dallesandro. Little Joe, como ficou conhecido mundialmente (ele é bem baixinho) se transformou na maior das Superstars da Factory e foi a estrela da trilogia “Flesh”, “Trash” e “Heat” que Morrissey filmou entre 68 e 72. O orçamento era sempre muito baixo e a qualidade técnica muito fraca. As interpretações eram sempre improvisadas e os “atores” interpretavam a si próprios o tempo todo. A fotografia é ruim, os cortes são primários e os enquadramentos nada acadêmicos. As histórias então… Em “Flesh” Joe é um garoto de programa, casado e com uma filhinha, que tem que passar o dia na rua para conseguir dinheiro para o aborto de uma “amiga” da sua mulher. Em “Trash” Joe mora com um travesti hilariante e eles vivem a catar lixo (móveis velhos, roupas, aparelhos domésticos…) e tudo o que Joe pensa é em se drogar. Algumas cenas são impressionantes e repugnantes até hoje tal a crueza com que foram filmadas.
Notem que a maioria das pessoas não consegue se divertir com esses filmes hoje em dia, mas eu acho todos “um barato”! Diversão pura, principalmente quando se tem a noção exata do que se passava por trás das câmeras e quando a gente entra no clima underground do filme.
O sucesso desses filmes foi tal (“Flesh”, por exemplo, competiu entre a crítica especializada com “Midnight Cowboy” que é a versão hollywoodiana da mesma realidade underground novaiorquina), que Morrissey resolveu caprichar um pouco mais com “Heat”. Nesse filme, Joe é um ator de TV que anda desempregado e sem grana. Sylvia Miles é uma grande ex-estrela aposentada e acaba “adotando” Joe em sua mansão californiana, no mesmo estilo “Sunset Blvd” de Norma Desmond e Joe Gillis. As semelhanças no roteiro dos dois filmes são poucas, e a atmosfera bem distinta, mas é quase impossível não comparar um com o outro. É como se “Heat” fosse a versão softporn de “Sunset Blvd”, com direito a tiros na piscina e tudo o mais. As estrelas não poderiam ser mais distintas, mas igualmente glamourosas em suas “especialidades”. Gloria Swanson uma verdadeira estrela da primeira grandeza e Sylvia Miles uma paródia perfeita, com uma presença “trash” tão hipnotizante quanto Swanson. William Holden, ator oscarizado, aclamado, brilha como o gigolo de classe, mas Joe Dallesandro rouba todas as atenções com sua naturalidade, espontaneidade e a aura de verdadeiro objeto sexual. Ele está ali para ser usado. Fala pouco, não sorri e apenas se expõe. Quem pagar mais leva, exatamente como na canção de Lou Reed.
Um boa sessão pipoca é alugar Sunset Blvd e Heat e assistir um seguido do outro. Infelizmente isso só pode ser feito nos Estados Unidos já que nenhum dos dois filmes está disponível nas locadoras brasileiras.

6 thoughts on “Andy Warhol Meets Sunset Blvd.

  1. adriana,
    tô produzindo uma mostra de cinema experimental em campinas, um pedaço do Festival do Livre Olhar de POA. Queria seu contato, te convidar para a mostra e saber como faço para exibir, como abertura, os filmes do andy que vc tem.
    abraço
    rodrigo

  2. Olá,
    Eu tenho dois filmes que o Warhol produziu, Blood for Dracula e Flesh for Frankenstein, ambos com Joe Dallessandro. Posso copiar para vocês, caso estejam interessados.
    Daniela

  3. Moa,
    Realmente, o texto está muito bom.
    Na universidade de cinema, os filmes do Warhol são bastante comentados, mas quase todo mundo – eu inclusive – nunca teve a oportunidade de assisti-los. Vamos ver se sai em DVD algum dia.
    Quanto a Sunset Blvd. vc já disse tudo, um dos roteiros mais geniais (com diálogos os mais virulentos) da história do cinema.
    Abraço.

  4. Tambem nao sei se nas Blockbusters daqui se acha filmes do Warhol. Nunca procurei.
    Mas devo, porque eu nunca vi nenhum deles… :-((((
    Com o Dalessandro na sua total boa forma [antes de virar um traste e pegar pontas em filmecos B- e alguns do Jonh Waters] eu so vi aquele frances, que ele eh um caminhoneiro que cai pela Jane Birkin.
    Ja Sunset Boulevard eh um dos meus favoritos! Preciso rever, porque o William Holden vale cada nao-piscada!
    Esse seu texto esta otimo, Moa!!
    Bjao!

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