Doce e Nostálgico

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Eu não era um fã dos filmes do Woody Allen até alguns anos atrás. A Bia sim, sempre gostou mais dos filmes do Woody Allen, do conjunto de sua obra, do que de qualquer outro diretor. Eu demorei muito tempo para entrar no clima dele, entender e curtir seu humor, sua sensibilidade. Hoje eu posso dizer que é um raro prazer assistir aos filmes de Woody Allen.
O primeiro que lembro de ter curtido de verdade foi “The Purple Rose of Cairo”, um singelo e envolvente filme sobre a sétima arte. O elenco tinha apenas Jeff Daniels da minha lista de mais queridos, mas isso não importou. Foi a homenagem perfeita à magia do cinema, ao caráter entorpecente e aliviador que os bons filmes nos trazem. Cecilia e eu: a mesma pessoa.
Depois vieram outros tantos que eu curti como jamais pensei que curtiria um filme de Woody Allen, porque cismava em achá-lo chato e neurótico! Hoje eu rio e me emociono com suas neuroses e tenho altas epifanias vendo seus filmes. “Manhattan” é belo em fotografia e cheio de emoções, além de ter uma das primeiras aparições na tela da querida Meryl Streep, com os cabelões escorridos, fazendo a ex-mulher lésbica de Woody. “Manhattan Murder Mystery” me fez gargalhar até chorar e acho que sou um dos poucos que curtiu tanto esse filme. “Deconstructing Harry” me fez ver o quanto Woody fala de si próprio para poder se entender e o auto deboche é levado ao extremo. “Bullets Over Broadway” é outro que me fez gargalhar e contém a inesquecível atuação de Diane Wiest repetindo, “Don’t speak”! “Stardust Memories” tem Charlotte Rampling e é hipnotizante com a mesma fotografia em preto e branco de “Manhattan”. “Celebrities”, “Mighty Afrodite”, “Small Time Crooks”… todos os mais recentes, muito divertidos e enriquecedores.
Hoje vi uma pérola única: “Sweet and Lowdown”. Sean Penn, como Emmet Ray, lendário guitarrista dos anos 30 e 40, figura mística envolvida em diversas histórias, com diversas versões diferentes, está divino, como sempre. Samantha Morton, como Harriet, a namorada muda de Ray, está magnífica e tocante. Algumas cenas são antológicas: Uma Thurman tentando entender a “obsessão” de Ray com trens, fazendo analogias diversas, para culminar com a mais óbvia sobre a sexualidade masculina, tal. Ray olha pra ela e diz, “Parece que você está querendo transar com o trem”!
O tom nostálgico fica por conta da época em que o filme se passa, pelo belíssimo jazz que ouvimos ao longo do filme e pela tristeza constante nos olhos de Sean Penn. Na pele dele, Emmet Ray parece ter sido um artista brilhante, intoxicado pelo próprio talento que se desespera ao perceber que deixara escapar por entre os dedos, por pura negligência, o amor de sua vida, Harriet. A doçura do filme está justamente em Harriet que, vivida por Samantha Morton, rouba todas as cenas e nos faz torcer por ela o tempo todo. Quando a gente se importa com os personagens de um filme, aí podemos dizer que o filme é realmente bom. E isso Woody Allen é mestre em fazer.

4 thoughts on “Doce e Nostálgico

  1. Eu nao gosto dos mesmos Allen’s que voce gosta [DETESTEI o abominavel Manhattan Murder Mistery]. Mas concordo com tudo sobre o Sweet & Lowdown! Um filme delicioso e adoravel! E todos os atrores estao otimos!
    bjus!

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