Filme imaginado

Algumas pessoas dizem que eu “entendo” de cinema. Mas acho que isso não existe. Ninguém “entende” de cinema. As pessoas (e eu entre elas) GOSTAM de cinema, lêem sobre cinema, vêem muitos filmes e por isso falam sobre cinema. Se isso é entender de cinema, então eu entendo. Mas acho que acima de qualquer coisa eu GOSTO de cinema, gosto de ver filmes e de falar (ou escrever) sobre eles e tudo o que gira em torno disso. Gosto tanto de cinema que às vezes chego a imaginar filmes que nunca foram feitos. Escalo elenco, idealizo cenários, visualizo a fotografia, escolho a trilha sonora… delírios infindáveis.
Meu melhor “casting”, eu acho, foi durante a leitura de um romance de William Faulkner que me assombra até hoje. Como é um livro muito difícil de ler só li uma vez. Foi num curso de literatura americana, na PUC do Rio, em 92! Fiquei assombrado pela história e pela maneira como ela é contada. Cada “capítulo” (e coloco entre aspas porque não são capítulos tradicionais, mas diversas “partes” ou “passagens” da história) é narrado por uma personagem diferente. Só lá pelo meio do livro é que a gente começa a entender um pouco o que está se passando. É necessário unir as peças do quebra-cabeça através dos diferentes pontos de vista de cada uma das narrações, reflexões e indicações de cada passagem.
O livro chama-se “As I Lay Dying” (que no Brasil foi traduzido como “Enquanto Agonizo”) e conta a história de uma família que se prepara para o enterro da mãe. No início da narrativa ela ainda não morreu, mas é certo de que isso acontecerá. O filho mais velho (são cinco, os filhos do casal), por exemplo, já começa o livro serrando madeira para construir o caixão. Outros, como o mais novo, ainda uma criança, se recusa a pensar na hipótese de que sua mãe pode estar morrendo. Ele ainda nem entende o que é morte, mas tem um “lampejo” de consciência ao ver um peixe que acabara de ser pescado, pulando na varanda de casa até parar e morrer. Quando sua mãe morre e ela a vê inerte, seu pensamento é único, “My mother is a fish”. A história se desenrola com a ida da família pra uma cidade distante onde é o desejo da mãe ser enterrada. Eles colocam o caixão numa carroça e atravessam rio, incêndio num celeiro e diversas dificuldades para chegar até o cemitério. Só lendo o livro para perceber o poder dessa obra de Faulkner. Inútil explicar.
No meu sonho cinematográfico David Lynch seria o diretor. Meryl Streep (que na época em que li o livro era ainda um pouco jovem para o papel, tem agora a idade perfeita) seria a mãe. Ela tem uma “passagem póstuma” que é chave para a compreensão de alguns fatos importantes na vida deles, e é vista em flashbacks, através das narrativas de cada uma das outras persagens. Jeremy Irons seria o pai. Ao começar a ler o livro eu vi Jeremy Irons, de pijama, sentado numa cadeira de balanço na varanda de uma casinha de madeira. Era o próprio.
O cinema, ao contrário do teatro, eterniza rostos e corpos e a gente consegue manter a imagem fixa de determinados atores, mesmo que hoje eles não sejam mais daquele jeito. Então, na minha cabeça os filhos seriam:
* Dennis Quaid (28 anos) como o filho mais velho, marceneiro, prático e caladão.
* River Phoenix (26 anos) como o segundo, o mais sensível, mais introspectivo e figura importante na história pois é quem tem mais passagens narrativas e por é com ele que o leitor mais se envolve (eu pelo menos!).
* Matt Dillon (19 anos) como o terceiro, um tipo garanhão, fortão, confiante e cheio de si, que toma atitudes impensadamente e, descobre-se mais tarde, é filho de uma relação extra-conjugal da mãe e, por isso mesmo, é o preferido dela.
* Laura Dern (17 anos) como a única filha, ainda descobrindo sua sexualidade, meio aérea e à margem dos acontecimentos.
* Macaulay Culkin (7 anos), como o caçula.
Hoje eu teria que repensar todo esse elenco. Nem o irmão mais novo de Macaulay Culkin daria para o papel. No lugar de Dennis Quaid talvez Hugh Jackman, mas ele também não tem mais 28 anos. Mas ainda consigo reler partes do livro e imaginar cada um desses atores interpretando esses papéis. Há um tempo atrás falou-se sobre uma possível adaptação desse romance de Faulkner para as telas. Parece que Jack Nicholson (bleargh!) e Sean Penn (clap! clap! clap!!) estavam envolvidos no projeto. Nada aconteceu. Por isso eu continuo com o sonho de escrever um roteiro e mandar pro David Lynch filmar. Who knows? ;^)))

6 thoughts on “Filme imaginado

  1. Ah Moa,
    você tem todo o talento pra escrever esse roteiro e muitos mais. Só depende do querer.
    Te gosto muito, viu?
    Saudades,moço bonito!
    analu

  2. Moa,
    Eu nunca imaginei um filme. Alias, minto, imaginei sim, mas nele EU era a estrela [sempre fazendo par com o heroi da epoca… nem queira saber os detalhes de quem!! ha ha ha!!].
    Mas esse seu filme ficaria dez, se tivesse sido feito uns dez anos atras.
    O Denis Quaid [ele foi um dos herois do meu filme, voce sabe, neh?? ;-)] com 28 anos ja foi ha muito tempo, hein? Agora ele ja pode fazer o papel do pai, de quase 50. Se bem que o Denis Quaid pra mim eh tudo de bom!! 🙂 Melhor que o Richard Gere!
    O River Phoenix nao dah mais, né? :-(((( So se usarem shots de outros filmes, como fizerram com o Brandon Lee, no The Crow [creepy!].
    Matt Dillon com 19 anos tambem ja nao dah… Ele ja esta quarentao, nao? Outro dia vi um filme com ele, a Tatum O’Neill e uma outra atriz que era adolescente na epoca [esqueci o nome] e que todo mundo queria ser ela… Cristie alguma-coisa. Inacreditavel a cara de pivete dele!!
    A Laura Dern tambem ja tah passada e depois de levar um pe-na-bunda homerico do Billy Bob, ficou na lista das losers… coitada!
    O Macaulay ate ja casou…. mas tem um irmaozinho dele, que eu vi num filme ai e que eh simplesmente a cara dele. Ja tem substituto!!
    Beijaoo!!!

  3. Oi meninos!
    Adorei este espaço aqui!!
    E se vocês não entendem de cinema, quem entende??
    beijo grande,

  4. Oi Moa.
    Em algumas poucas vezes já me aconteceu de estar assistindo a um filme e, de repente, faltar luz. Tenho a tendência de, numa situação dessas, começar a visualizar as minhas imagens do filme, ou seja, como seria o filme dali por diante, que caminhos a história tomaria, como se desenvolveriam os personagens.
    Claro que isso sempre vai depender da intensidade das imagens do filme.
    Viajei um pouco, não, hehehe?
    Abraço e parabéns pelo blog. Está muito legal.

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