Não é por nada que o diretor Sam Peckinpah ganhou o apelido de “Bloody Sam”. Seus filmes são violentos, para usar apenas um adjetivo.
Eu lembro de ter assistido Straw Dogs muitos anos atrás numa sessão de cinema da madugada num canal de tv brasileiro. Foi há muitos, muitos anos, mas eu ainda tinha guardado na memória a expressão no rosto do ator Dustin Hoffman nos momentos finais do filme.
Desta vez assisti ao filme já sabendo o que iria acontecer. E prestei muito mais atenção em pequenos detalhes. Straw Dogs é um filme sobre limites. O que acontece com um sujeito pacato que é provocado até um ponto extremo.
Dustin Hoffman é David Sumner, um matemático norte-americano, que decide mudar-se para a cidade natal da esposa Amy [Susan George] no interior da Inglaterra, para fugir da violência das grande cidades americanas. Ele quer tranquilidade, respirar ar puro e beber água que não venha de uma garrafa.
O lugar é perfeito, com uma casa é isolada no alto de uma colina. Mas logo no início do filme notamos uma certa atmosfera hostil. Especialmente com um grupo de amigos – entre eles Charlie [Del Henney] , que teve um caso com Amy no passado. E esse mesmo grupo é contratado pelo casal para fazer pequenos concertos na casa.
Há também uma tensão na cidade com relação à um rapaz com problemas mentais. Os homens bebem e ficam agressivos. Há rivalidades entre eles. O machismo também é intrínseco à esse grupo. E Amy é a ‘carne nova’ no pedaço, cobiçada e provocativa, usando seus sueters sem sutiã e suas mini-saias.
A tensão no filme vai crescendo, mas ainda não se consegue perceber de onde virá a paulada. David começa a se irritar com a infantilidade e imaturidade da esposa, que não o deixa trabalhar e fica cobrando tolices que ele não consegue contornar. Ela se diverte provocando os rapazes e depois se irrita que eles a devoram com os olhos e dão risadinhas irônicas.
O grupo de homens que trabalha na casa de David e Amy começa então sua investida. Primeiro estrangulando o gato da casa e pedurando o bicho morto no armário do quarto do casal. Depois convidam David para uma caçada e o deixam lá no meio do mato isolado, enquanto voltam para a casa e estupram Amy. Essa é primeira cena realmente desconfortável no filme e a que custou aos ingleses o direito de ver o filme em video e DVD. Na cena, Amy não luta muito contra o primeiro estuprador [Charlie], e até parece estar curtindo a transa, entre lágrimas e caras e bocas.
Durante uma festa da cidade, o rapaz doente mental é seduzido por uma fulaninha, que [lembrando uma cena de Of Mice and Men] acaba morta. O pai – encrenqueiro mor da cidade – e seu grupo de amigos machos bêbados e violentos [os mesmos que trabalham na casa de Amy e David] são chamados para a típica caçada humana. David atropela sem querer o rapaz fugitivo e o leva para casa. Aí começa o cerco e o filme explode em violência. David quer dialogar, usar o bom-senso, mas não há reciprocidade. Os homens vandalizam a casa na tentative de invadí-la e capturar o rapaz. David transforma-se de intelectual pacato em guerreiro medieval.
Straw Dogs é um filme perturbador. Peckinpah joga na nossa cara que não é possível fugir da violência, nem é possível permanecer alienado em determinadas circunstâncias, especialmente quando uma vida é ameaçada. A linha que nos separa do bárbaro e do animalesco é tão sutil que quase não se percebe o exato momento que a transpassamos.

strawdogs

8 thoughts on “Straw Dogs

  1. Eu tbm vi esse filme, desconhecia esse diretor,
    gostei muito da atmosfera do filme, é instigante,
    gostaria de aproveitar o espaco e saber se vc lembra de um filme chamado herdeiros do mal, eu nao sei bem se é o nome do filme, eu sei que a senopse é o seguinte, tres mulheres vao acampar em uma floresta, e nela mora uma familia muito estranha, a mae e dois irmaos, os caras sao loucos parecem uns bichos, os caras perseguindo as garotas na floresta é muito alucinante… por favor se souber de alguma coisa…

  2. Gostei muito de Sob o Domínio do Medo, mas já faz muito tempo que o vi. Será que vocês podem me informar quando a Globo pretende exibi-lo novamente ou se o filme está disponível em DVD?
    Um abraço

  3. Eu também vi este filme há muitos anos, numa madrugada da Globo. Lembro que gostei muito… mas preciso assistir novamente.
    Recentemente assisti a “Cruz de Ferro”, também do Peckinpah, que enfoca um grupo de soldados alemães na Segunda Guerra…

  4. Oi Fer, oi Moa,
    No Brasil, “Straw Dogs” chamou-se “sob o Domínio do Medo”.
    E aposto que o Peckinpah favorito da Fer é o “Pat Garret & Billy the Kid”, por causa da canção “Knockin’ on Heaven’s Door”, cantada nos créditos finais pelo personagem ‘Alias’ (Robert Zimmerman) 😉
    Mas, para mim, nada se compara ao impacto da estréia da ‘estética da violência’ que foi o “Meu Ódio Será sua Herança/The Wild Bunch”, filme que deu início às filmagens de explosões de sangue em câmera lenta.
    …não gosto do Straw Dogs; detesto filme onde o personagem principal age como um idiota inocente até finalmente explodir. Detesto filme onde me irrito com cada gesto cego do personagem. Vou num crescendo de irritação, que não mais consigo apreciar o filme. São, para mim, aqueles scripts demasiadamente ‘armados’ para me satisfazer.
    Abraços,

  5. o casal osterman..serve esse?haaaaa…perdão..é IRREVERSIBLE..o filme da monica,ok?solidão extrema num sabado a noite deixa a gente meio xureta!thanks..

  6. Fezoca, eu sempre quis ver esse filme. Sabia o título brasileiro, mas esqueci. Só que nunca tive a oportunidade de vê-lo. Tudo o que já li sobre ele é sempre muito bom, apesar da violência. Fiquei agora ainda mais curioso…

  7. Nega, vi esse filme já tem um tempão, mas me lembro que gostei do filme e MUITO. Pusta diretor o Peckinpah neh? Você seria capaz de me dizer títulos de outros filmes seus? POINT BLANK, por um acaso, é dele? Ce me fez ficar afins de ver esse filme de novo, vou ver se encontro ele na BB local. Besitos!

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