EYES WIDE SHUT

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Acho que já vi “De Olhos Bem Fechados” (Eyes Wide Shut, Stanley Kubrick, 1999.) umas quatro vezes, pelo menos. Talvez cinco. Desde a primeira vez eu gostei muito. A princípio não soube muito bem porquê. A atmosfera de sedução, suspense, o calor e a frieza, a mistura de sexo (prazer) e perigo. Todas essas coisas estão presentes no filme e me fascinam. Com o tempo fui notando detalhes da produção que acabaram virando um jogo para mim. Por exemplo, contar quantas árvores de Natal aparecem no filme. Reparar em todos os azuis e vermelhos e pensar no significado de cada tom em cada momento diferente. Talvez esses pequenos “jogos” é que me fazem não cansar nunca de ver esse filme.

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Como não quero estragar totalmente o filme para quem ainda não teve o prazer de vê-lo, vou publicar mais abaixo o texto que escrevi, comentando TODA a história do filme, praticamente cena por cena. Como tem inúmeros detalhes e eu acabei por não mencioná-los todos, um dia eu escrevo mais, faço uma boa revisão no texto e publico de novo. Em todo caso, mesmo para quem ainda não viu o filme, ou quem viu e não gostou mas está disposto a dar uma nova chance a essa obra-prima, o lance é o seguinte: o filme é sobre escolhas. Sobre obsessão. Sobre sexo, traição e desejo. O que eu notei desde a primeira vez que vi o filme foi que existe um momento de epifania da personagem de Tom Cruise que marca o “turning point” do filme e um mergulho no próprio reflexo por parte da personagem de Nicole Kidman. Daí em diante tudo parece uma mistura de sonho e realidade, com fortes toques de pesadelo. Por isso o ritmo é lento, a música hipnotizante, meio irritante para alguns. Mas é uma viagem que o casal faz, cada um em separado, para dentro de si mesmos. Atentem para o detalhe de que tudo começa a “acontecer” depois que eles fumam um baseado. A maconha proporciona a dose exata de “expansão da consciência” que eles estavam precisando para reavaliar o casamento deles. Abre portas, através de seus olhos e eles mergulham dentro de si próprios.
“Eyes Wide Shut” é um filme brilhante, digno de muitas interpretações e inúmeras revisões. Divirtam-se:

(Obs.: Daqui pra frente, se você ainda não viu o filme e não quer que eu te conte tudo, não leia. Veja o filme primeiro!)

Bill Harford é um médico de sucesso. Mora com sua esposa, Alice, num super apartamento próximo ao Central Park em Nova York. Eles têm uma filhinha chamada Helena. Doutor Bill anda de olhos bem fechados. Ele não enxerga as inúmeras possibilidades de sexo que se apresentam à sua frente. Nem na festa que vai com a esposa, logo no início do filme, onde duas modelos tentam seduzi-lo a todo custo. Ele brinca, responde às duas com simpatia e amabilidade, mas em momento algum corresponde ao jogo sexual. Durante a festa Bill é chamado pelo dono da casa para socorrer uma garota de programa que teve uma overdose e está desmaiada em um banheiro. A mulher, muito bonita, está inteiramente nua (à exceção dos sapatos de salto alto) e Bill parece sequer notar o fato, tão sensato e concentrado no papel de médico e amigo. No seu escritório, no dia seguinte, ele examina uma jovem e bela mulher, que está com os seios nus. Ele é profissional e indiferente à sua nudez o tempo todo.
Alice é o oposto. Na primeira cena ela se despe, como fará na cena chave do filme, quando conta ao marido seus mais íntimos desejos. Em seguida ela aparece sentada no vaso sanitário, fazendo xixi. Ela se levanta, se limpa e veste a calcinha. “Pera lá!!”, eu disse logo ao ver o filme a primeira vez. “Nicole Kidman, a maior estrela americana do momento, enxugando a perereca na frente das câmeras?! Isso só pode ser um sinal. Esse filme tem mais por baixo dos panos do que ele aparenta.” E assim, fiquei mais ligado aos sinais. Pra mim estava claro: ela era “normal”, de carne e osso, cheia de desejos e segredos, mas que não tinha medo de enfrentar seus demônios, se despir das máscaras e viver as fantasias. Tanto que, na festa, Alice é cortejada por um atraente senhor húngaro que a tira para dançar. O jeito dele “atacá-la” é bem direto e ela entende o recado imediatamente. Mas o tempo todo ela o rejeita, dizendo ser uma mulher casada e feliz (Bill, ao contrário, em momento algum diz às modelos com quem conversa que é um homem casado). Talvez fosse o champagne que ela bebeu demais, talvez fosse o carisma sexual do homem que tentava seduzí-la, o fato é que Alice se entregou à conversa de duplo sentido e despediu-se com “coisas na cabeça”, lançando um beijinho para o húngaro sedutor.
Ao chegar em casa, Alice se despe em frente ao espelho. Bill, nu, aproxima-se dela e começa a beijá-la e acariciá-la. Ela não tira os olhos do espelho. A câmera se aproxima de seu rosto, visto pelo espelho e seu olhar é cheio de desejos escondidos. A cena vai se diluindo conforme o close no olho de Alice aumenta até desaparecer, como um fantasma. Não sabemos ao certo se eles fizeram amor ou não. Mas sabemos que Alice entrou no espelho, como “Alice no País das Maravilhas”. E através do espelho seus fantasmas são liberados. Ela os enxerga. Ela está de olhos bem fechados mas enxergando dentro de si mesma.
Na noite seguinte, em casa, Alice resolve fumar um baseado. Ela enrola o cigarro de maconha e Bill fuma com ela, na cama. A conversa começa a esquentar aos poucos. Ela pergunta sobre as duas modelos com quem ele conversava na festa. Ele desconversa. Pergunta quem era o senhor que dançou com ela. Ela responde que ele estava interessado nela, que ele queria trepar com ela. Bill diz que não se espanta pois ela é uma mulher bonita e entende o que ele sentia. Isso foi o suficiente para que Alice “virasse o ovo”. De repente, como se entendesse as coisas de uma maneira completamente diferente, ela se zanga e pergunta a Bill se ele acha que a única razão para um homem conversar com ela é porque ele a achava atraente, não por qualquer outra característica de sua personalidade. Bill tenta se explicar. Eles descutem um pouco. Alice conclui que as mulheres estão milhões de anos de evolução à frente dos homens. Bill acha que elas simplesmente não pensam desse jeito e que ele não precisa se preocupar em sentir ciúmes dela.
ALICE: “Você tem muita confiança em si mesmo, não?”
BILL: “Não. Eu confio em VOCÊ.”
Alice explode numa gargalhada incontrolável, como se fosse efeito da maconha. Ela ri durante alguns minutos, apontando para ele, rindo dele. Até que ela se acalma e conta de um homem que viu, um ano antes, no lobby de um hotel onde eles estavam hospedados. Ela e o oficial da marinha (o tal homem) cruzaram olhares durante um instante. Foi apenas um instante. Mas foi o bastante para que ela quisesse que o mundo parasse e ela pudesse se entregar a ele. Alice diz a Bill que se o oficial da marinha a quisesse, nem que fosse por uma única noite, ela estaria disposta a largar tudo: marido, filha, casa, tudo. Apenas por uma noite. Diz que naquele dia eles fizeram amor, mas que durante todo o tempo ela pensou no outro homem. Tudo isso é dito com muita eloqüência e Nicole Kidman está fantástica. É a sua melhor cena no filme. Alice diz, ainda, que seu amor por Bill, naquele momento era terno e triste ao mesmo tempo, mas mais forte do que nunca.
Enquanto Alice fala, muito pausadamente, Bill a olha fixamente. Ele está perplexo. Seus olhos estão cheios de lágrimas e ele não sabe o que pensar. Paralisado, sem ação, Bill a encara incredulamente. Esse é seu momento de epifania ainda não revelada. Inconscientemente ele começa a despertar para o fato de que há sexo no mundo e que as pessoas se sentem atraídas por outras, independentemente de estarem casadas, comprometidas ou apaixonadas.
O telefone toca e Bill é despertado de seu torpor. Ele precisa sair de casa para visitar a filha de um paciente que acabara de morrer. No taxi, a caminho da casa do morto, e durante todo o resto do filme Bill tem visões de Alice transando com o oficial da marinha. As cenas são em preto e branco, num tom azulado, frias na composição, mas Alice está irreconhecível, entregando-se ao homem dos seus sonhos.
Daí pra frente, o olhar de Bill muda. Ele começa a perceber todas as possibilidades de sexo e traição que se apresentam a ele, durante as 24 horas de seus dias. A filha do morto, por exemplo, noiva de um belo homem (Thomas Gibson), declara-se a Bill, em frente ao corpo de seu pai falecido. Diz que o ama e que não quer se casar com o noivo. Diz que sempre o amou. Bill está perplexo. “Você mal me conhece”, ele diz. “Eu te amo”, ela diz. Ela o beija. O noivo chega. Bill se vai.
Caminhando pela rua, obsecado com a visão de Alice e o marinheiro, Bill é intimidado por um bando de caras que o chamam de viado e o mandam de volta para São Francisco, onde é seu lugar. Por estarem em Greenwich Village, bairro gay de Nova York, os caras assumem que Bill é homossexual. Bill reaje de maneira apática, incrédula e, cautelosamente, se afasta, com sua sexualidade posta em dúvida. “Minha mulher quer me trair. Eu não a satisfaço. Me chamam de bicha.” Ainda caminhando pela rua, uma prostituta o aborda. Ela é simpática e consegue persuadí-lo a entrar em seu apartamento. Ele é educado e gentil demais, como sempre. Ela toma as iniciativas. Ele topa. Quando estão prestes a se beijar o celular de Bill toca. É Alice. Ela está em casa, comendo biscoito de chocolate e bebendo leite (bateu a larica, pós maconha!), vendo televisão na cozinha. Ele mente e diz que ainda está na casa do morto e que pode demorar um pouco mais. Ela diz que não vai esperá-lo e vai se deitar.
Melhor dizer nesse momento que a composição visual desse filme é estupenda! Enquanto “Great Expectations” tem tons de verde espalhados por todos os cenários e figurinos (por funções puramente estéticas e de preferência do diretor), em “Eyes Wide Shut” existe o tempo todo a duplicidade do vermelho e azul. A iluminação, os cenários e os figurinos alternam-se entre vermelho e azul, num constante contraste em calor e frio, sexo e sua ausência, enviando-nos mensagens visuais sobre intenções das personagens e o desencadeamento do roteiro.
O quarto de Bill e Alice é vermelho. Lençóis cor de vinho, cortinas vermelhas. Enquanto conversam e fumam o baseado, a porta do banheiro está aberta e a luz que vem de lá é azul, fria. Dentro do quarto, em volta da cama, o tom é quente, vermelho. Na casa da prostituta o tom é vermelho. Seu vestido é lilás e a luz é quente. Quando vemos Alice na cozinha, ligando para o celular de Bill, tudo é azulado, frio e “apático”. Nas cenas externas, vemos muitas luzes azuis e vermelhas, carros vermelhos que passam, pessoas com roupas azuis ou em tons de vermelho. A porta do prédio da prostituta é vermelhona – sexo puro! Quando vemos Alice se arrumando numa manhã, ela veste uma blusa num tom azul, o sexo está escondido, apesar de a termos visto nua. Naquele momento sua mente está distante de sexo. Ao mesmo tempo o vestido de Helena é vermelhão, pois ela é a prova viva de que esse casal, pelo menos algum dia, teve uma vida sexual ativa e feliz.
Voltando a Bill em sua “cruzada para a iluminação sexual”, ele acaba se despedindo da prostituta e indo embora sem nada fazer. Paga 150 dólares e sai. Mais uma vez na rua sua obsessão o assombra. Esse é talvez o tema central para mim. O quanto a gente pode se sentir obsecado por uma idéia, uma pessoa, um fato. Talvez como eu tenha ficado obsecado por esse filme. A idéia o assombra, Bill visualiza sua mulher transando com o oficial da marinha. Vezes e vezes seguidas. Ele saiu de casa em estado de choque, não conversou com Alice sobre o assunto. Ela simplesmente disse a ele o que havia sentido. Mais nada. Ele imagina o que quiser e a suposição de que ela pudesse desejar tanto outro homem é o que basta para ele entrar em parafuso e, de certa forma, procurar “vingança”. “Se ela me trai eu posso traí-la também”, ele deve pensar.
Enquanto caminha, tentando (sem querer) voltar para casa, mais uma vez ele é detido. Dessa vez ele encontra o Sonata Café onde toca numa banda um ex-colega de faculdade que ele reencontrara, agora pianista, na festa dos Ziegler, no início do filme. Como ele na verdade não quer voltar pra casa, ele entra no bar. Vermelho até não poder mais. Todas as paredes, iluminação e detalhes são em tons de vermelho. Seu amigo termina de tocar e eles conversam um pouco. No meio do papo Bill descobre que Nick toca em umas festas misteriosas, onde, de acordo com Nick, acontecem coisas que a gente nem imagina. “E com mulheres tão lindas”. Bill fica doido pra ir. Consegue arrancar, sem muito esforço, o endereço e a senha (FIDELIO) para entrar na festa. Só precisa arranjar uma fantasia (uma capa com capuz e uma máscara).
Depois de uma peguena peregrinação atrás da máscara que irá esconder sua luxúria e verificar que existem muito mais tentação na Big Apple do que ele imagina, Bill se encaminha para a festa, numa mansão afastada de Manhattan. No taxi, mais visões de Alice e o marinheiro. Sua obsessão é crescente e temos que lembrar que tudo isso se passa na mesma noite em que Alice conta a ele sobre o marinheiro. Poderíamos supor que Bill ainda está sob o efeito da maconha que fumou. Na verdade ele age em muitos momentos de maneira letárgica, quase sonâmbula, seguindo a inércia do momento, sua quase estúpida e impensada vontade de “vingança” pela traição que Alice cometeu em pensamento.
Bill chega à tal “festa hedonista”. A seqüência é famosa pois foi digitalmente alterada para não ferir a moral e os bons costumes dos americanos. Nós pudemos ver toda a orgia sem “manipulação de fora”, mas eu achei aquela cena muito “light” em termos de sacanagem. O sexo, apesar do vermelho e da quantidade de corpos nus se esfregando, é frio e “encenado”. Não por acaso parece um sonho. Um sonho que vira pesadelo, pois, sem muita lógica (e isso é o que irrita a maioria dos espectadores, me parece), Bill é “descoberto” e passa por tensos momentos de perigo. Como todos estão mascarados, ninguém está realmente se expondo, mesmo nu e trepando sem parar. A maioria das pessoas, diga-se de passagem está completamente vestida. Bill, entretanto é o único a ter seu rosto revelado. Ao ser obrigado a tirar a máscara, em frente a todos, seu rosto parece pegar fogo. Por pouco não tem que tirar a roupa e “dar pra todos”. Confesso que fiquei torcendo pra ver essa cena. Na verdade toda vez que vejo o filme fico pensando que poderia alterar digitalmente o final da cena. Em vez da mulher misteriosa que aparece “doando-se” para “redimi-lo” (por estar de “penetra” na festa), eu imagino Tom Cruise “liberando geral”. Ia ser legal. ;^))))) Depois a gente descobre que essa mulher é a mesma que Bill atendeu no banheiro do amigo, durante a festa na noite anterior. Como ela descobre que aquele mascarado (tão igual a qualquer outro mascarado da festa) é o Dr. Bill é que a gente não fica sabendo. Mas não importa. A festa é o “sonho molhado” de Bill. É desejo que ele queria realizar, mas não se permite. Nem em sonhos.
Depois que Bill é chutado pra fora da festa ele volta pra casa tarde da noite. Alice está dormindo. Helena também. Tudo azul em casa. Luzes que entram pela janela são azuladas, como se um ar gelado penetrasse por frestas nas paredes. Quando Bill entra no quarto Alice está sonhando. Aos poucos ela começa a rir. Seu riso vai aumentando até virar uma gargalhada. Bill a acorda e ela se assusta. Ele deita ao seu lado e ela conta sobre o sonho horrível que estava tendo. O sonho é horrível porque nele Alice, mais uma vez, zomba da fidelidade de Bill. Em seu sonho ela é participante de uma festa hedonista, um grande bacanal, e Bill é um mero espectador. É como se ela fosse uma daquelas mulheres mascaradas na festa em que ele estava presente. Mas ele não consegue fazer absolutamente nada na festa, enquanto Alice, em seu sonho, trepa até cansar. E ri de Bill. Zomba dele, como zombou antes ao contar do oficial da marinha. Ela estava rindo quando ele chegou em casa. É quase como se ela risse dele porque ele gastou uma pequena fortuna entre taxi e fantasia, passou por momentos horríveis e não gozou nem uma vez! O que é horrível no sonho dela, na sua risada, é que na verdade ela não quer traí-lo e nem quer que ele se sinta diminuído pois Alice ama seu marido mais do que nunca.
No dia seguinte Bill passa horas tentando ainda entender o que está acontecendo. Descobre que seu amigo pianista foi mandado embora de Nova York. Descobre que a mulher misteriosa da festa morreu. Descobre que aquela prostituta com quem ele quase transou está contaminada com o vírus HIV. Descobre ainda que o dono da casa de fantasias “vende” a própria filha para quem quiser traçá-la. Volta na casa da festa e descobre que eles sabem seu nome e tem sua família ameaçada, caso ele não se afaste e pare de “xeretar”. Enfim, é um dia “perdido” em que tudo o que ele tenta fazer para “curar” sua obsessão com o sexo e a traição conjugal resulta em nada. A tortura mental de Bill é compartilhada por todos nós. A música do filme é propositalmente lenta nos fazendo entrar em seu mundo de sonâmbulo, sem sabermos ao certo se é sonho ou pesadelo. Quando Bill volta para casa encontra Alice dormindo e a máscara que ele usou na festa em cima do seu travesseiro, ao lado de Alice. Ele esquecera a máscara em casa e ao retornar a fantasia na loja teve que pagar pela máscara esquecida (aliás, em dois dias de filme, Bill gastou no mínimo 750 dólares entre corridas de taxi, prostituta não comida e aluguel de fantasia não desfrutada). Quando se depara com a máscara ao lado de Alice que dorme tão pacificamente (sabe-se lá que sonhos Alice está tendo, né?), Bill entra em choque e começa a chorar copiosamente. Alice acorda assustada e Bill continua chorando. Ele diz, “Vou te contar tudo. Vou te contar tudo.” E continua chorando.
Manhã do terceiro dia. Alice está no sofá da sala, com a cara inchada de tanto chorar. Eles saem para fazer compras de Natal com Helena. Na loja (provavelmente FAO Schwartz) enquanto a menina olha brinquedos eles conversam. A mistura de azul e vermelho é bem equilibrada, tanto no ambiente quanto em suas roupas. Bill veste jeans azul e suéter vermelha. Eles estão voltando à harmonia de seu cotidiano. Ele quer que Alice o perdoe, mas não sabe nem bem do quê. Alice está estranha, mas também não entende direito o que se passou. Eles estão mudados. Ela diz que eles deveriam se sentir gratos por tudo o que aconteceu.
BILL: “Pelo quê?”
ALICE: “Por termos sobrevivido nossas fantasias, quer elas tenham sido reais ou sonhadas.”
BILL: “Você tem certeza disso?”
ALICE: “Tanto quanto tenho certeza de que a realidade de uma única noite (ou mesmo de toda uma vida) nunca é toda a realidade.”
BILL: “Assim como um sonho nunca é um sonho.”

Apesar de suas desconfianças mútuas, eles estão finalmente de olhos bem abertos. Eles se conhecem mais um pouco e parece que sobreviveram à tempestade. Alice encerra o filme brilhantemente.
ALICE: “Tudo o que sei é que temos que fazer algo o mais rápido possível.”
BILL: “O que?”
ALICE: “Foder.”
Depois de tantas trocas de confidências, fantasias e desejos compartilhados, mas não vividos, eles chegam ilesos ao final de uma jornada para o despertar. E é entre eles, um com o outro, que poderão saciar sua fome de sexo. Talvez seja até um tanto moralista, pois nenhum dos dois, no final das contas, cometeu infidelidade, efetivamente. A união deles foi posta em jogo mas eles passaram na prova. Acho que eles deram sorte mesmo. Nem sempre a gente tem a mesma chance de rever nossas relações sem estragá-las por completo. A infidelidade é uma tentação. Todo mundo sente isso, em maior ou menor grau. A questão é de escolha. Manter-se fiel a uma união, a um pacto e sacrificar desejos quase sempre passageiros em prol de um amor maior. O legal do filme é que ela teve a coragem de se expor e ele teve a sorte de não conseguir se meter numa enrascada maior. Mais uma vez: se fosse sempre assim…


Bill Harford é um médico de sucesso. Mora com sua esposa, Alice, num super apartamento próximo ao Central Park em Nova York. Eles têm uma filhinha chamada Helena. Doutor Bill anda de olhos bem fechados. Ele não enxerga as inúmeras possibilidades de sexo que se apresentam à sua frente. Nem na festa que vai com a esposa, logo no início do filme, onde duas modelos tentam seduzi-lo a todo custo. Ele brinca, responde às duas com simpatia e amabilidade, mas em momento algum corresponde ao jogo sexual. Durante a festa Bill é chamado pelo dono da casa para socorrer uma garota de programa que teve uma overdose e está desmaiada em um banheiro. A mulher, muito bonita, está inteiramente nua (à exceção dos sapatos de salto alto) e Bill parece sequer notar o fato, tão sensato e concentrado no papel de médico e amigo. No seu escritório, no dia seguinte, ele examina uma jovem e bela mulher, que está com os seios nus. Ele é profissional e indiferente à sua nudez o tempo todo.
Alice é o oposto. Na primeira cena ela se despe, como fará na cena chave do filme, quando conta ao marido seus mais íntimos desejos. Em seguida ela aparece sentada no vaso sanitário, fazendo xixi. Ela se levanta, se limpa e veste a calcinha. “Pera lá!!”, eu disse logo ao ver o filme a primeira vez. “Nicole Kidman, a maior estrela americana do momento, enxugando a perereca na frente das câmeras?! Isso só pode ser um sinal. Esse filme tem mais por baixo dos panos do que ele aparenta.” E assim, fiquei mais ligado aos sinais. Pra mim estava claro: ela era “normal”, de carne e osso, cheia de desejos e segredos, mas que não tinha medo de enfrentar seus demônios, se despir das máscaras e viver as fantasias. Tanto que, na festa, Alice é cortejada por um atraente senhor húngaro que a tira para dançar. O jeito dele “atacá-la” é bem direto e ela entende o recado imediatamente. Mas o tempo todo ela o rejeita, dizendo ser uma mulher casada e feliz (Bill, ao contrário, em momento algum diz às modelos com quem conversa que é um homem casado). Talvez fosse o champagne que ela bebeu demais, talvez fosse o carisma sexual do homem que tentava seduzí-la, o fato é que Alice se entregou à conversa de duplo sentido e despediu-se com “coisas na cabeça”, lançando um beijinho para o húngaro sedutor.
Ao chegar em casa, Alice se despe em frente ao espelho. Bill, nu, aproxima-se dela e começa a beijá-la e acariciá-la. Ela não tira os olhos do espelho. A câmera se aproxima de seu rosto, visto pelo espelho e seu olhar é cheio de desejos escondidos. A cena vai se diluindo conforme o close no olho de Alice aumenta até desaparecer, como um fantasma. Não sabemos ao certo se eles fizeram amor ou não. Mas sabemos que Alice entrou no espelho, como “Alice no País das Maravilhas”. E através do espelho seus fantasmas são liberados. Ela os enxerga. Ela está de olhos bem fechados mas enxergando dentro de si mesma.
Na noite seguinte, em casa, Alice resolve fumar um baseado. Ela enrola o cigarro de maconha e Bill fuma com ela, na cama. A conversa começa a esquentar aos poucos. Ela pergunta sobre as duas modelos com quem ele conversava na festa. Ele desconversa. Pergunta quem era o senhor que dançou com ela. Ela responde que ele estava interessado nela, que ele queria trepar com ela. Bill diz que não se espanta pois ela é uma mulher bonita e entende o que ele sentia. Isso foi o suficiente para que Alice “virasse o ovo”. De repente, como se entendesse as coisas de uma maneira completamente diferente, ela se zanga e pergunta a Bill se ele acha que a única razão para um homem conversar com ela é porque ele a achava atraente, não por qualquer outra característica de sua personalidade. Bill tenta se explicar. Eles descutem um pouco. Alice conclui que as mulheres estão milhões de anos de evolução à frente dos homens. Bill acha que elas simplesmente não pensam desse jeito e que ele não precisa se preocupar em sentir ciúmes dela.
ALICE: “Você tem muita confiança em si mesmo, não?”
BILL: “Não. Eu confio em VOCÊ.”
Alice explode numa gargalhada incontrolável, como se fosse efeito da maconha. Ela ri durante alguns minutos, apontando para ele, rindo dele. Até que ela se acalma e conta de um homem que viu, um ano antes, no lobby de um hotel onde eles estavam hospedados. Ela e o oficial da marinha (o tal homem) cruzaram olhares durante um instante. Foi apenas um instante. Mas foi o bastante para que ela quisesse que o mundo parasse e ela pudesse se entregar a ele. Alice diz a Bill que se o oficial da marinha a quisesse, nem que fosse por uma única noite, ela estaria disposta a largar tudo: marido, filha, casa, tudo. Apenas por uma noite. Diz que naquele dia eles fizeram amor, mas que durante todo o tempo ela pensou no outro homem. Tudo isso é dito com muita eloqüência e Nicole Kidman está fantástica. É a sua melhor cena no filme. Alice diz, ainda, que seu amor por Bill, naquele momento era terno e triste ao mesmo tempo, mas mais forte do que nunca.

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Enquanto Alice fala, muito pausadamente, Bill a olha fixamente. Ele está perplexo. Seus olhos estão cheios de lágrimas e ele não sabe o que pensar. Paralisado, sem ação, Bill a encara incredulamente. Esse é seu momento de epifania ainda não revelada. Inconscientemente ele começa a despertar para o fato de que há sexo no mundo e que as pessoas se sentem atraídas por outras, independentemente de estarem casadas, comprometidas ou apaixonadas.
O telefone toca e Bill é despertado de seu torpor. Ele precisa sair de casa para visitar a filha de um paciente que acabara de morrer. No taxi, a caminho da casa do morto, e durante todo o resto do filme Bill tem visões de Alice transando com o oficial da marinha. As cenas são em preto e branco, num tom azulado, frias na composição, mas Alice está irreconhecível, entregando-se ao homem dos seus sonhos.
Daí pra frente, o olhar de Bill muda. Ele começa a perceber todas as possibilidades de sexo e traição que se apresentam a ele, durante as 24 horas de seus dias. A filha do morto, por exemplo, noiva de um belo homem (Thomas Gibson), declara-se a Bill, em frente ao corpo de seu pai falecido. Diz que o ama e que não quer se casar com o noivo. Diz que sempre o amou. Bill está perplexo. “Você mal me conhece”, ele diz. “Eu te amo”, ela diz. Ela o beija. O noivo chega. Bill se vai.
Caminhando pela rua, obsecado com a visão de Alice e o marinheiro, Bill é intimidado por um bando de caras que o chamam de viado e o mandam de volta para São Francisco, onde é seu lugar. Por estarem em Greenwich Village, bairro gay de Nova York, os caras assumem que Bill é homossexual. Bill reaje de maneira apática, incrédula e, cautelosamente, se afasta, com sua sexualidade posta em dúvida. “Minha mulher quer me trair. Eu não a satisfaço. Me chamam de bicha.” Ainda caminhando pela rua, uma prostituta o aborda. Ela é simpática e consegue persuadí-lo a entrar em seu apartamento. Ele é educado e gentil demais, como sempre. Ela toma as iniciativas. Ele topa. Quando estão prestes a se beijar o celular de Bill toca. É Alice. Ela está em casa, comendo biscoito de chocolate e bebendo leite (bateu a larica, pós maconha!), vendo televisão na cozinha. Ele mente e diz que ainda está na casa do morto e que pode demorar um pouco mais. Ela diz que não vai esperá-lo e vai se deitar.
Melhor dizer nesse momento que a composição visual desse filme é estupenda! Enquanto “Great Expectations” tem tons de verde espalhados por todos os cenários e figurinos (por funções puramente estéticas e de preferência do diretor), em “Eyes Wide Shut” existe o tempo todo a duplicidade do vermelho e azul. A iluminação, os cenários e os figurinos alternam-se entre vermelho e azul, num constante contraste em calor e frio, sexo e sua ausência, enviando-nos mensagens visuais sobre intenções das personagens e o desencadeamento do roteiro.
O quarto de Bill e Alice é vermelho. Lençóis cor de vinho, cortinas vermelhas. Enquanto conversam e fumam o baseado, a porta do banheiro está aberta e a luz que vem de lá é azul, fria. Dentro do quarto, em volta da cama, o tom é quente, vermelho. Na casa da prostituta o tom é vermelho. Seu vestido é lilás e a luz é quente. Quando vemos Alice na cozinha, ligando para o celular de Bill, tudo é azulado, frio e “apático”. Nas cenas externas, vemos muitas luzes azuis e vermelhas, carros vermelhos que passam, pessoas com roupas azuis ou em tons de vermelho. A porta do prédio da prostituta é vermelhona – sexo puro! Quando vemos Alice se arrumando numa manhã, ela veste uma blusa num tom azul, o sexo está escondido, apesar de a termos visto nua. Naquele momento sua mente está distante de sexo. Ao mesmo tempo o vestido de Helena é vermelhão, pois ela é a prova viva de que esse casal, pelo menos algum dia, teve uma vida sexual ativa e feliz.
Voltando a Bill em sua “cruzada para a iluminação sexual”, ele acaba se despedindo da prostituta e indo embora sem nada fazer. Paga 150 dólares e sai. Mais uma vez na rua sua obsessão o assombra. Esse é talvez o tema central para mim. O quanto a gente pode se sentir obsecado por uma idéia, uma pessoa, um fato. Talvez como eu tenha ficado obsecado por esse filme. A idéia o assombra, Bill visualiza sua mulher transando com o oficial da marinha. Vezes e vezes seguidas. Ele saiu de casa em estado de choque, não conversou com Alice sobre o assunto. Ela simplesmente disse a ele o que havia sentido. Mais nada. Ele imagina o que quiser e a suposição de que ela pudesse desejar tanto outro homem é o que basta para ele entrar em parafuso e, de certa forma, procurar “vingança”. “Se ela me trai eu posso traí-la também”, ele deve pensar.
Enquanto caminha, tentando (sem querer) voltar para casa, mais uma vez ele é detido. Dessa vez ele encontra o Sonata Café onde toca numa banda um ex-colega de faculdade que ele reencontrara, agora pianista, na festa dos Ziegler, no início do filme. Como ele na verdade não quer voltar pra casa, ele entra no bar. Vermelho até não poder mais. Todas as paredes, iluminação e detalhes são em tons de vermelho. Seu amigo termina de tocar e eles conversam um pouco. No meio do papo Bill descobre que Nick toca em umas festas misteriosas, onde, de acordo com Nick, acontecem coisas que a gente nem imagina. “E com mulheres tão lindas”. Bill fica doido pra ir. Consegue arrancar, sem muito esforço, o endereço e a senha (FIDELIO) para entrar na festa. Só precisa arranjar uma fantasia (uma capa com capuz e uma máscara).
Depois de uma peguena peregrinação atrás da máscara que irá esconder sua luxúria e verificar que existem muito mais tentação na Big Apple do que ele imagina, Bill se encaminha para a festa, numa mansão afastada de Manhattan. No taxi, mais visões de Alice e o marinheiro. Sua obsessão é crescente e temos que lembrar que tudo isso se passa na mesma noite em que Alice conta a ele sobre o marinheiro. Poderíamos supor que Bill ainda está sob o efeito da maconha que fumou. Na verdade ele age em muitos momentos de maneira letárgica, quase sonâmbula, seguindo a inércia do momento, sua quase estúpida e impensada vontade de “vingança” pela traição que Alice cometeu em pensamento.
Bill chega à tal “festa hedonista”. A seqüência é famosa pois foi digitalmente alterada para não ferir a moral e os bons costumes dos americanos. Nós pudemos ver toda a orgia sem “manipulação de fora”, mas eu achei aquela cena muito “light” em termos de sacanagem. O sexo, apesar do vermelho e da quantidade de corpos nus se esfregando, é frio e “encenado”. Não por acaso parece um sonho. Um sonho que vira pesadelo, pois, sem muita lógica (e isso é o que irrita a maioria dos espectadores, me parece), Bill é “descoberto” e passa por tensos momentos de perigo. Como todos estão mascarados, ninguém está realmente se expondo, mesmo nu e trepando sem parar. A maioria das pessoas, diga-se de passagem está completamente vestida. Bill, entretanto é o único a ter seu rosto revelado. Ao ser obrigado a tirar a máscara, em frente a todos, seu rosto parece pegar fogo. Por pouco não tem que tirar a roupa e “dar pra todos”. Confesso que fiquei torcendo pra ver essa cena. Na verdade toda vez que vejo o filme fico pensando que poderia alterar digitalmente o final da cena. Em vez da mulher misteriosa que aparece “doando-se” para “redimi-lo” (por estar de “penetra” na festa) , eu imagino Tom Cruise “liberando geral”. Ia ser legal. ;^))))) Depois a gente descobre que essa mulher é a mesma que Bill atendeu no banheiro do amigo, durante a festa na noite anterior. Como ela descobre que aquele mascarado (tão igual a qualquer outro mascarado da festa) é o Dr. Bill é que a gente não fica sabendo. Mas não importa. A festa é o “sonho molhado” de Bill. É desejo que ele queria realizar, mas não se permite. Nem em sonhos.
Depois que Bill é chutado pra fora da festa ele volta pra casa tarde da noite. Alice está dormindo. Helena também. Tudo azul em casa. Luzes que entram pela janela são azuladas, como se um ar gelado penetrasse por frestas nas paredes. Quando Bill entra no quarto Alice está sonhando. Aos poucos ela começa a rir. Seu riso vai aumentando até virar uma gargalhada. Bill a acorda e ela se assusta. Ele deita ao seu lado e ela conta sobre o sonho horrível que estava tendo. Horrível o sonho é porque nele Alice, mais uma vez, zomba da fidelidade de Bill. Em seu sonho ela é participante de uma festa hedonista, um grande bacanal, e Bill é um mero espectador. É como se ela fosse uma daquelas mulheres mascaradas na festa em que ele estava presente. Mas ele não consegue fazer absolutamente nada na festa, enquanto Alice, em seu sonho, trepa até cansar. E ri de Bill. Zomba dele, como zombou antes ao contar do oficial da marinha. Ela estava rindo quando ele chegou em casa. É quase como se ela risse dele porque ele gastou uma pequena fortuna entre taxi e fantasia, passou por momentos horríveis e não gozou nem uma vez! O que é horrível no sonho dela, na sua risada, é que na verdade ela não quer traí-lo e nem quer que ele se sinta diminuído pois Alice ama seu marido mais do que nunca.
No dia seguinte Bill passa horas tentando ainda entender o que está acontecendo. Descobre que seu amigo pianista foi mandado embora de Nova York. Descobre que a mulher misteriosa da festa morreu. Descobre que aquela prostituta com quem ele quase transou está contaminada com o vírus HIV. Descobre ainda que o dono da casa de fantasias “vende” a própria filha para quem quiser traçá-la. Volta na casa da festa e descobre que eles sabem seu nome e tem sua família ameaçada, caso ele não se afaste e pare de “xeretar”. Enfim, é um dia “perdido” em que tudo o que ele tenta fazer para “curar” sua obsessão com o sexo e a traição conjugal resulta em nada. A tortura mental de Bill é compartilhada por todos nós. A música do filme é propositalmente lenta nos fazendo entrar em seu mundo de sonâmbulo, sem sabermos ao certo se é sonho ou pesadelo. Quando Bill volta para casa encontra Alice dormindo e a máscara que ele usou na festa em cima do seu travesseiro, ao lado de Alice. Ele esquecera a máscara em casa e ao retornar a fantasia na loja teve que pagar pela máscara esquecida (aliás, em dois dias de filme, Bill gastou no mínimo 750 dólares entre corridas de taxi, prostituta não comida e aluguel de fantasia não desfrutada). Quando se depara com a máscara ao lado de Alice que dorme tão pacificamente (sabe-se lá que sonhos Alice está tendo, né?), Bill entra em choque e começa a chorar copiosamente. Alice acorda assustada e Bill continua chorando. Ele diz, “Vou te contar tudo. Vou te contar tudo.” E continua chorando.
Manhã do terceiro dia. Alice está no sofá da sala, com a cara inchada de tanto chorar. Eles saem para fazer compras de Natal com Helena. Na loja (provavelmente FAO Schwartz) enquanto a menina olha brinquedos eles conversam. A mistura de azul e vermelho é bem equilibrada, tanto no ambiente quanto em suas roupas. Bill veste jeans azul e suéter vermelha. Eles estão voltando à harmonia de seu cotidiano. Ele quer que Alice o perdoe, mas não sabe bem do quê. Alice está estranha, mas também não entende direito o que se passou. Eles estão mudados. Ela diz que eles deveriam se sentir gratos por tudo o que aconteceu.

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BILL: “Pelo quê?”
ALICE: “Por termos sobrevivido nossas fantasias, quer elas tenham sido reais ou sonhadas.”
BILL: “Você tem certeza disso?”
ALICE: “Tanto quanto tenho certeza de que a realidade de uma única noite (ou mesmo de toda uma vida) nunca é toda a realidade.”
BILL: “Assim como um sonho nunca é apenas um sonho.”

Apesar de suas desconfianças mútuas, eles estão finalmente de olhos bem abertos. Eles se conhecem mais um pouco e parece que sobreviveram à tempestade. Alice encerra o filme brilhantemente.
ALICE: “Tudo o que sei é que temos que fazer algo o mais rápido possível.”
BILL: “O que?”
ALICE: “Foder.”
Depois de tantas trocas de confidências, fantasias e desejos compartilhados, mas não vividos, eles chegam ilesos ao final de uma jornada para o despertar. E é entre eles, um com o outro, que poderão saciar sua fome de sexo. Talvez seja até um tanto moralista, pois nenhum dos dois, no final das contas, cometeu infidelidade, efetivamente. A união deles foi posta em jogo mas eles passaram na prova. Acho que eles deram sorte mesmo. Nem sempre a gente tem a mesma chance de rever nossas relações sem estragá-las por completo. A infidelidade é uma tentação. Todo mundo sente isso, em maior ou menor grau. A questão é de escolha. Manter-se fiel a uma união, a um pacto e sacrificar desejos quase sempre passageiros em prol de um amor maior. O legal do filme é que ela teve a coragem de se expor e ele teve a sorte de não conseguir se meter numa enrascada maior. Mais uma vez: se fosse sempre assim…

3 thoughts on “EYES WIDE SHUT

  1. O que fez “eyes wide shut” especial, é o meu momento. Se tivesse assistido há alguns anos, ele não teria o mesmo impacto.
    O que posso dizer dele hoje? Excepcionalmente didático e genial… Estou sensivelmente tocada. Parei para assistir, pois se tratava de um filme muito comentado e por ter um conteúdo erótico…, mas… é muito mais que isso. Vivo um momento, onde fantasias e realidades se fundem. O filme veio como uma ducha fria para acordar… moralista? Quem sabe…
    Sua página está muito bem montada, meus parabéns, remete exatamente à atmosfera do filme.

  2. A tal cena hedonista, conforme descreve, é um ritual satanico com todos os detalhes. De certa forma não deixa de ser assustador, pois é um segredo revelado. Kubrick, tanto pelos textos escolhidos, como por sua maneira de enxergar o mundo, deve ter tido algum contato, o que de forma alguma tira o mérito do filme.

  3. Também sou fã incondicional nde Stanley Kubrick, amei este filme , e claro muitos dos que assistiram ao meu lado discordaram de mim. parabéns pela resenha e pelo fato de me relembrar momentos tão únicos deste filme!!!!!!

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