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Ontem eu vi um maravilhoso documentário de uma hora de duração sobre “Marnie”, filme de Hitchcock lançado em 1964 sobre o qual eu sempre falo. Hoje é fácil conhecer esse filme. Passa no Telecine Classic de vez em quando, está a venda em DVD e tem para alugar em VHS nas locadoras. Mas nem sempre foi assim. Há anos atrás, como era difícil conseguir ver alguns filmes eu ouvia falar neles, lia sobre eles e não os via. Com isso a mística em torno de alguns filmes aumentava e meu fascínio e curiosidade também.
“Marnie” sempre foi o número um da minha lista “pessoal”. Aliás, eu tenho várias listas de prediletos. Quando quero impressionar digo que é “Cidadão Kane” ou “Crepúsculo dos Deuses”. Quando quero reafirmar o meu fascínio por Bette Davis digo que é “A Malvada” ou “Pérfida”. Para ser correto, hitchcockianamente falando, digo que seus melhores filmes são “Um Corpo que Cai” e “Janela Indiscreta”. Quando quero ser esnobe digo que meu filme predileto é “Cul de Sac”, um dos primeiros de Roman Polanski. Mas tudo isso é bobagem. São filmes excelentes, sem dúvida, e figuram nas minhas listas com razão. Entretanto, nenhum filme me fascina mais do que “Marnie”. E ontem eu tive mais um pequeno vislumbre sobre a razão disso.
No documentário “The Trouble With ‘Marnie'”, Peter Bogdanovich (cineasta e estudioso de cinema que eu adoro cada dia mais) diz que Hitchcock era um defensor do “cinema puro”. Segundo Bogdanovich “Marnie” é o auge desse “cinema puro” onde cada movimento de câmera, corte, ângulo, tomada, gesto dos atores, olhares e uso da trilha sonora têm uma razão muito específica e clara de ser. Conforme se assiste “Marnie” mais vezes é possível perceber Hitchcock atrás das câmeras, cortando e “costurando” (editando) o filme enquanto ele é filmado. Toda a artificialidade dos cenários aumenta mais ainda minha sensação de “faz de conta”, do fato de que estamos ouvindo uma estória ser contada. O uso de cores e figurinos é controlado, os movimentos de todos os atores também. Nada é por acaso. Cada expressão facial no rosto dos atores foi guiada por Hitchcock e ele sabia o que queria. Sabia que o que importava era o produto visual final e não a “motivação” dos atores durante qualquer cena.

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Se cinema é imagem em ação, Hitch levou isso às últimas conseqüências, montando imagem após imagem de forma a nos fazer crer que estamos assistindo a uma única peça e não vários fragmentos. Isso é cinema. Ao final do documentário, um crítico diz que “se você não gosta de ‘Marnie’, então você não gosta de Hitchcock.” E vai mais além, alertando-nos de sua declaração bombástica, “Se você não AMA ‘Marnie’, então você não gosta de cinema.”
Eu amo “Marnie”. Tanto quanto eu amo cinema. E nenhum cineasta conseguiu me fazer gostar mais e querer entender mais de cinema como Alfred Hitchcock.
P.S.: Esse assunto não está esgotado. Não falei sobre Sean Connery e Tippi Hedren. Fica pra próxima. Tenho que levar o cachorro pra passear.
“Na seqüência”, um texto que escrevi em 2000, quando morei em Porto Alegre, e do qual gosto muito:


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Tem um certo tempo que não vou ao cinema. Nem tenho visto muitos filmes interessantes na TV. Trabalho, pouca grana, pouco tempo. Aquelas coisas. Mas pra mim isso não faz muita diferença. De certa forma eu tenho o cinema dentro de mim e vejo filmes o dia inteiro, todos os dias. Quem me ensinou a gostar de cinema foi a minha mãe. Já disse isso várias vezes. Talvez porque eu a admirasse tanto, a amasse tanto, tudo o que a minha mãe me disse me causou um profundo impacto. Lembro de frases, expressões, gestos. Dentre tantos, alguns filmes me marcaram mais como sendo os “preferidos” da minha mãe. “Virtude Selvagem” com Gregory Peck e “Charada” com Audrey Hepburn e Cary Grant, são dois dos mais lembrados. Nomes como Paul Newman, Kim Novak e Susan Hayward também me fazem lembrar da minha mãe.
Um dos filmes que eu mais ouvi falar antes de conseguir finalmente vê-lo na telinha às altas horas de uma longíngua madrugada foi “Marnie” de Hitchcock. Lembro da minha mãe falando da tensão, do vermelho, da Tippi Hedren cavalgando, dos cavalos. Minha mãe sempre gostou de cavalos. Sempre falou em cavalos e do quanto gostava de admirá-los nos filmes e ao vivo. Em “Marnie” uma das sequências mais marcantes para mim é quando Sean Connery leva Tippi Hedren ao hipódromo. Ela é fascinada por cavalos e diz que não confia em ninguém e em nada, a não ser nos cavalos – Existe um “subtexto” por trás disso pois a personagem Marnie é uma mulher frígida que compensa seus traumas sexuais cavalgando (e roubando).
Não sei explicar muito bem porque mas acredito que seja a atmosfera sofisticada, excitante e ensolarada que as cenas de corridas de cavalos sempre me transmitiram que me fazem gostar tanto de cavalos, hipódromos, corridas, chapéus, um certo suspense, um toque de sensualidade no ar. E a lembrança da minha mãe.
Quando morava no Rio de Janeiro tentei uma única vez assistir ao Grande Prêmio Brasil, no Jockey Club da Gávea, mas apesar do convite para a tribuna social eu estava sem gravata e fui barrado. Entretanto, naqueles poucos minutos no hipódromo eu me senti dentro de “My Fair Lady”, naquela sequência inesquecível quando Rex Harrison leva Audrey Hepburn às corridas. Toda a sequência é elaboradíssima com figurinos exclusivamente em preto e branco, desenhados por Cecil Beaton. E Audrey encanta como Eliza Doolittle, tentando adaptar-se à novas regras sociais em que se encontrava, mas sem deixar de se entusiasmar pelas corridas.
Uma versão moderna dessa exata sequência, mais “light” e sem maiores pretensões, pode ser apreciada em “Uma Linda Mulher” quando Richard Gere leva a garota de programa interpretada por Julia Roberts às corridas. Ela também está “disfarçada” e, sem suas “roupas de trabalho”, se encaixa perfeitamente no cenário das corridas, entre cavalos, chapéus e luvinhas brancas.
Quando “Missão: Impossível – 2” chegou às telas brasileiras, eu fui ao cinema para ver os malabarismos de Tom Cruise sob a direção de John Woo e ganhei de presente uma seqüência num hipódromo, cheia de tensão, suspense e sensualidade. Grande parte do charme dessas cenas se deve à presença luminosa de Thandie Newton, mas as apostas, os cavalos, a excitação da largada, a corrida em si e o momento da chegada, me são tão “caros” que assisti o resto do filme com um sorriso no rosto, sem me importar muito com o resto da ação.
Mas eu sempre volto a “Marnie” onde a atmosfera de tensão e repressão é sempre maior. Onde a presença dos cavalos traz conforto à Marnie, mas o vermelho da roupa de um dos jockeys nos sinaliza que há algo ainda por ser descoberto. Suspense e sensualidade. Ninguém melhor do que Hitchcock para nos entreter. Quantas vezes eu revi esse filme? Não sei mais, já perdi a conta.
Quando me mudei para Porto Alegre comecei a procurar um apartamento para alugar. O primeiro lugar que visitei foi exatamente o lugar onde moro há pouco mais de seis meses. Cheguei a procurar outros, mais próximos do centro da cidade, mas além desse apartamento ser adoravelmente espaçoso e confortável, ele fica exatamente em frente ao Hipódromo do Cristal. Então, todos os dias, desde que mudei para cá, eu vejo a pista de corridas do hipódromo. Vejo as arquibancadas, naquela arquitetura típica de hipódromo, abertas, charmosas, amplas. Em um determinado dia da semana, todas as semanas, tem corrida e ao cair da tarde as luzes do hipódromo são acesas e iluminam toda a avenida onde moro e os prédios altos no quarteirão atrás do meu. Essas noites iluminadas são tão mágicas que deixam um brilho singelo e ao mesmo tempo excitante no ar. E não importa o que eu faça (caminhe até o mercado ou vá à locadora, pegue um ônibus para ir trabalhar, ou simplesmente vá abrir a porta para algum visitante), o hipódromo está sempre lá, à minha frente. Vislumbro cavalos ao longe e me vejo entre Tippi Hedren e Sean Connery. Revejo “Marnie” todos os dias, mesmo que não coloque a fita no video. Penso na minha mãe e me sinto próximo a ela.
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Tive vontade de escrever sobre isso tudo num dia em que tirava o pó dos móveis da sala. Entre vários porta-retratos, repousam seis cavalinhos azuis de porcelana que minha mãe comprou há muito tempo atrás. Durante anos (quando ainda morávamos todos juntos), minha mãe guardou os cavalinhos azuis pois eles podiam quebrar. Quando me vi morando sozinho, consegui convencê-la de que a minha casa era o melhor lugar para guardar os cavalos, onde eles poderiam ser expostos, sem o risco de serem quebrados. Ao me mudar para Porto Alegre, os cavalinhos azuis tiveram lugar de honra na minha mala (foram trazidos comigo na bagagem de mão e não despachados com a mudança, ou no compartimento de bagagens do avião). Hoje eles são ítens de valor afetivo inestimável, belos, delicados e lembranças constantes da influência e presença do cinema e da minha mãe na minha vida.
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Demorei dias para escrever esse texto. Sempre que pensava em escrevê-lo, alguma coisa me atrapalhava. Era como se eu estivesse esperando algo. Hoje recebi uma carta da minha mãe. Junto com a carta ela manda uma página da revista de Domingo do Jornal do Brasil, com uma crônica do Apicius falando dos cavalinhos azuis (que ele diz serem chineses) e, num belíssimo texto escrito por ela, minha mãe diz que um dos seus sonhos jamais realizados é o de visitar o Hipódromo da Gávea…
Era o sinal que eu esperava e cá estou agora, a finalizar essa história. Apesar de olhar o Hipódromo do Cristal todos os dias, eu ainda não fui visitá-lo. Espero um domingo de sol glorioso, um dia de corridas e a visita da minha mãe. Talvez a gente possa ir olhar os cavalos, assistir um filme no cinema, comprar mais cavalinhos azuis.
Porto Alegre, 15 de agosto de 2000.