Chinatown em casa

O prazer de se ver um bom filme no cinema é incomparável, sem dúvida. Mesmo quando o filme é apenas “mediano”, ainda assim eu acho que vale a pena pagar o preço da entrada para assiti-lo na tela grande. Entretanto, na maioria das vezes a gente não tem outra opção para ver grandes clássicos se não for na telinha dentro de casa.
Melhor ainda quando a gente descobre que já tem dentro de casa uma obra de arte e que nem lembrava que o tal filme era tão bom. Roman Polanski sempre figurou na minha lista de cineastas prediletos, mas por alguma razão eu não me lembrava bem de “Chinatown”. Lembro de tê-lo visto uma vez, há muito tempo atrás. Lembrava bem do “grande segredo” do filme, mas não lembrava do final, nem de quão bonito e envolvente o filme é, apesar de ter um final tão triste e sem esperanças, do tipo que Hollywood não faz mais. É realmente um olhar europeu sobre os americanos – mais ou menos como Ang Lee fez com “The Ice Storm” (Tempestade de Gelo).
O elenco:
Jack Nicholson está melhor do que nunca em “Chinatown”. Jake Gittes é um detetive particular, do jeitão que Humphrey Bogart era antes, mas não tão durão. Um cara sensível, que se apaixona por suas clientes e que faz mais por elas do que deveria fazer, já que invariavelmente as coisas acabam mal. Ele não está caricato e exagerado como nos filmes em que interpreta o louco insano, chegando a ficar até bonito. Só agora eu vejo como Jack Nicholson pode ser charmoso e fazer com que a platéia realmente torça por ele.
Faye Dunaway nunca foi um exemplo de atriz que me despertasse paixões. Não me lembro de nenhuma atuação sua que eu realmente gostasse ou que me marcasse tremendamente. Em “Chinatown”, no entanto, ela é a grande chave do mistério, é um misto de vilã e heroína e tem em seu olhar uma dor irreparável que intriga e instiga. Sua fala e seus olhares são os indícios que precisamos para chegar ao centro do filme. Tem um momento em especial, quando ela está no carro e pede a Jack Nicholson que volte pra casa com ela e ele diz que está cansado e que ir dormir, é em poucos segundos que a gente vê claramente em sua reação à resposta dele, seu olhar perdido, o quanto ela quer esquecer toda a dor, o quanto ela precisa de conforto e consolo. Magistral.
John Huston é a perfeita encarnação do mal. Não por ele ser medonho ou asqueroso, muito pelo contrário. Sua imagem é a de um homem gentil e refinado, mas as coisas que ele diz e o que se descobre sobre ele é que o fazem ainda mais vil. E sendo John Huston existe um peso maior na sua presença na tela.
Mas “Chinatown” não só é recheado de bons e carismáticos atores. O roteiro é PRIMOROSO! O tipo do filme que a gente tem que prestar atenção, que tem muitos detalhes mas que são tão intrigantes e bem escritos que dá vontade de continuar prestando atenção. E, no final, já nos foi dito, é Chinatown, onde o controle se perde, as coisas acontecem à revelia e não se pode dizer quem é culpado ou inocente. Também o visual do filme é mágico e os enquadramentos são tão bonitos que parecem uma seqüência de fotografias. Los Angeles nunca foi tão bela.
Terminou o filme e eu estava triste pelo destino das personagens principais, mas feliz por ter visto uma obra-de-arte, do tipo que justifica chamar cinema de “a sétima arte”.

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Como se não bastasse, o cartaz do filme é o mais belo que jamais vi e conta um pouquinho da história, na medida certa, em cada detalhe desenhado: Jack Nicholson está no escuro. É um filme noir, mas também é sua personagem Jake Gittes, que está no escuro por não conhecer todos os meandros da trama. Faye Dunaway é uma figura etérea, meio misteriosa, diáfana, que é a fonte de luz, pois ela detém as informações, mas escapa por entre os dedos, como fumaça. Sob os dois, estão as águas turbulentas. Água é elemento central na trama mas indica também os mistérios que o mar abriga e não são águas paradas, elas se movem o tempo todo. O filme é cheio de ondas, cheio de vira-voltas, como também é a fumaça que sai do cigarro de Gittes e se mistura ao cabelo de Evelyn Mulwray. Eles se conectam no cartaz e no filme por uma linha sinuosa, tortuosa e que é facilmente desfeita. O romance deles desmancha no ar. O cartaz diz tudo.

6 thoughts on “Chinatown em casa

  1. Este filme é simplesmente o grande clássico do genero NOIR, depois de Falcão Maltês e O Terceiro Homem.

  2. …Este cartaz está pregado na porta do quarto dela, pelo lado de fora. Não precisa nem entrar para vê-lo.
    Não, não é preciso entrar. Ao menos que se queira.

  3. Moa, definitivamente preciso rever este filme…aliás, preciso VER, pois lendo o q vc escreveu é como se tratasse de algo inédito pra mim – será q eu vi mesmo Chinatown? :-))
    Beijocas,
    Bia.

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