As Horas

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Imaginem um dia na vida de três mulheres. Dias que aconteceram em anos distintos, em lugares distantes uns dos outros e na vida de mulheres diferentes umas das outras. Mas muitas das coisas que aconteceram nesses três dias parecem estranhamente ligadas e podemos imaginar uma máquina do tempo, que nos faz saltar de 1923 para 1941 e para 2001 e continuar saltando de um ano para outro, sempre no mesmo dia, acompanhando essas três mulheres.
Essa é a história de “As Horas”, filme baseado no romance homônimo de Michael Cunningham. O filme, indicado a inúmeros prêmios da Academia, é uma perfeita adaptação do livro de Cunningham, que também conta a história de três mulheres e de três dias em suas vidas. Quando vi o filme pela primeira vez tive o enorme prazer de ter a sensação de estar assistindo a um clássico (apesar de recém lançado), uma obra-prima sendo apreciada pela primeira vez. Li uma vez alguém falando que queria ter o prazer de rever “Cidadão Kane” como da primeira vez (ou teria sido “Psicose”?). Durante “As Horas” eu não cheguei a pensar nisso, mas agora me recordo e procuro gravar na memória as sensações, momentos de intensa emoção e prazer, que tive durante a projeção do filme.
O único dia na vida dessas mulheres na verdade são três dias diferentes, mas a gente tem a impressão de que eles estão acontecendo ao mesmo tempo. Eles estão ligados por um livro, “Mrs. Dalloway” de Virginia Woolf. Em 1923 Virginia começa a escrevê-lo e passa o dia às voltas com o esboço do que acontecerá no livro. Em 1941, Laura Brown lê o livro e, com a ajuda de seu filho, prepara um bolo para comemorar o aniversário do marido. E em 2001, Clarissa Vaughn, uma editora de sucesso que mora no Village em Nova York com sua companheira Sally, prepara uma festa para seu melhor amigo Richard. Ele ganhou um prêmio por sua obra literária e acredita que o prêmio não passa de um consolo por estar morrendo de Aids. Ele chama Clarissa de Mrs. Dalloway. Clarissa é Mrs. Dalloway.
Temos então a escritora (Virginia Woolf – Nicole Kidman), a leitora (Laura Brown – Julianne Moore) e a personagem (Clarissa Vaughn – Meryl Streep). Nicole está assombrosa e irreconhecível não apenas por causa da prótese no nariz, mas também por todo seu trabalho corporal. A voz mais grave, o andar meio inclinado para a frente, o olhar baixo. Entretanto, Nicole não é ao meu ver a atriz principal do filme, pois Virginia é a narradora. Ela abre e fecha o filme e de sua mente saem as “horas” que as outras sentem e vivem, mas é Julianne Moore e, principalmente, Meryl Streep que brilham mais.

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Eu sei, sou suspeito. Depois de tudo o que escrevi sobre Meryl ninguém vai me acreditar. Mas Clarissa é quem tem a maior carga emocional do filme e é ela que vai, no final das contas, conseguir superar a crise e perceber o lado bom da vida.
Eu não vou continuar falando do filme. Não é necessário. Melhor é assisti-lo. Prefiro falar mais um pouco de Meryl. Há tempos não tinha tanto prazer em ir ao cinema. Me lembro que, no início dos anos 80 fui ao cinema com um amigo e vimos, no mesmo dia, “Out of Africa” e “Plenty”! Foi um pequeno festival Meryl Streep e naquela época Meryl estava no topo e tinha inúmeras ofertas de grandes papéis. Agora, numa semana em que eu vejo “Adaptação” e “As Horas”, me sinto feliz e agraciado com o talento, a intensidade e beleza de Meryl novamente. Em “As Horas”, Meryl, apesar de mais velha que Nicole e Julianne, está mais bela e sensual. É dela os mais belos closes e algumas das melhores frases. Eu tive a sensação de estar reencontrando uma velha amiga.
Mais uma palavra sobre “As Horas”. Não poderia deixar de mencionar a magistral trilha sonora de Phillip Glass. Fusão perfeita de imagens, sensações e música. E reparem na beleza que é a montagem do filme, a maneira como vemos Virginia pensando na frase de abertura do seu livro (“Mrs. Dalloway disse que compraria ela mesma as flores”), Laura começando a ler o livro e Clarissa dizendo logo de manhã cedo, “Sally, eu mesma vou comprar as flores.”
Estou lendo o livro agora e já começo a achar que o filme é melhor. ;^)

8 thoughts on “As Horas

  1. Gostei muito do filme “As Horas”,é inteligente e fascinante.É exatamente assim um filme que surpreende um público de pessoas que gostam de refletir,meditar.É um filme que mexe com a maneira de pensar sobre a vida,sore as pessoas,sobre o tempo,o passado,o presente e o futuro…é realmente uma produção especial e marcante.Além daquela bela música,que tocada no final do filme, (Não sei o nome da música,nem quem a compôs).A música do piano combinou perfeitamente com o aspecto meditativo e emocionante do filme!

  2. Adorei o filme, é mto bom… Mas o livro é melhor… (li antes de ver, de repente é por isso…) Gostei mto de todos os seus textos… Vou voltar mais!
    Beijinhos!

  3. Belíssimo texto, Moacir. Concordo com você em quase tudo (principalmente no que se refere a Meryl Streep – tive a mesma sensação que você).
    Só não concordei mesmo com o finzinho, em que você fala que o filme pode ser melhor que o livro. Maldade… Só não fico indignado porque sei que é brincadeira sua! 😉
    Mas, agora falando sério: esse Michael Cunningham é o cão chupando manga! Ele e Jonathan Carroll (injustamente inédito aqui no Brasil) são dois dos melhores autores americanos contemporâneos, na minha opinião. Que venham mais filmes de Cunningham!
    Abraço!

  4. Com certeza, o filme é belíssimo. Só discordo da parte da Merryl e Nicole. Pegaram muito no pé da Nicole por causa do nariz falso… e daí? Faz parte do figurino! Prestaram muito mais atenção no nariz do que em sua interpretação. Agora a sua voz arrastada, e o seu olhar vazio é desesperador. Me faz acreditar em sua depressão. Agora em relação a Merryl eu não acho tudo isso. Eu achei no filme (como em Adaptação também) uma interpretação correta, mas nada demais.
    Agora, a melhor de todas é a Julianne Moore. Sem sombra de dúvidas.

  5. Moa, concordo com voce que o filme eh da Meryl e da Julianne, apesar de todo o esforco da Nicole. Eu, sinceramente, nao gostei dela como Virginia Woolf. Achei falso… E inapropriado. Se ela fosse uma atriz do porte da Streep, teria feito a Woolf sem nariz falso…. Eu acho que para fazer a escritora, a atriz escolhida teria que ser mais velha e mais madura. E voce sabe que qdo eu comeco a implicar nao paro m,ais, neh? 🙂 Mas tudo o que eu via na tela era aquele nariz horrivel….. achei desproposital e mal feito. Mas a Julianne Moore esta divina…. E a Meryl Streep corretissima, como sempre. Eu nao sabia que tina o filme Mrs. Dalloway, como a Bia citou aqui. Gostaria muito de ve-lo. Eu comprei o livro….! 🙂
    Beijao!

  6. Moa,
    gostaria de saber como vc se sentiu ao rever o filme…
    no mesmo dia em q assisti ao filme, passou Mrs. Dalloway na TV Bandeirantes, a versao com Vanessa REdgrave…foi uma pena nao tê-lo visto. Sempre q nos envolvemos com um grande filme, fica essa urgência de saber mais coisas sobre a história e tudo que se relaciona a ela.
    Depois conta sobre o livro.
    Beijocas,
    Bia.

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