[* Mais uma reedição de review, em caráter super-espetacular para o Cinefilia.]
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Nos filmes de Woody Allen a música sempre teve papel de destaque, mesmo quando o tema da estória não tem nenhuma conexão com a história da música. Todos sabem que Allen é um aficionado por jazz e todas as produções musicais dos anos 30 e 40. Então não fica difícil de acreditar que a personagem principal de Sweet and Lowdown foi uma pessoa real, que de fato existiu e tocou sua guitarra pelos bares de Atlantic City e Chicago no começo da década de 30.
Emmet Ray (Sean Penn) é um guitarrista de jazz – “o segundo melhor do mundo, só ficando atrás do cigano Django Reinhardt”, em suas próprias palavras – que toca por

Sean Penn

prazer e leva uma vida de boêmio. Ray é uma figura ímpar que toca o violão com habilidade extraordinária, mas sua vida é toda desregrada. Ele é um bêbado, vive jogando e apostando no bilhar, explora mulheres como gigolô (dizem as más línguas que muitos músicos de jazz da época tinham o habito de ganhar uns tostões na gigolotagem), é cleptomaníaco e não quer compromisso com ninguém. Seu passatempo predileto é dar tiros em ratos nos depósitos de lixo da cidade e ir olhar o trem passar. Ele só tem uma obsessão, que o amedronta e paralisa: encontrar o guitarrista Django Reinhardt – o melhor guitarrista de jazz do mundo.
Woody Allen conta as aventuras de Emmet Ray pelos nightclubs de Atlantic City e Chicago de uma maneira documentária. É quase como se estivéssemos assistindo Biography ou Profile na televisão. A estória do guitarrista é intercalada por depoimentos do próprio Allen e de outros entendidos de jazz na vida real, como o expert musical Nat Hentoff. Quem não entende muito de música pode até se enganar e pensar que Sweet and Lowdown é realmente um documentário. Mas ele é apenas fruto da imaginação do diretor, que nos presenteia com mais um filme inesquecível.
Sean Penn recebeu uma indicação para o Oscar de melhor ator pelo trabalho de dar vida ao ficcional Emmet Ray. Ele está perfeito e até aprendeu a tocar violão para

Morton e Penn

fazer este papel. O elenco está harmonico, com Uma Thurman no papel de Blanche, uma socialite que circula entre os músicos de jazz e acaba se casando com Ray. O diretor John Waters também faz uma aparição relâmpago, mas quem realmente rouba as cenas é a atriz Samantha Morton (de Jesus’ Son) no papel de Hattie, a lavadeira muda que se apaixona por Ray e o acompanha pelos hotéis em New Jersey. Morton também recebeu uma indicação para o Oscar de melhor atriz coadjuvante e se não arrebatou a estatueta, ao menos se fez notar e nos emocionou com a sua interpretação da simplória e comilona Hattie.
Sweet and Lowdown é mais uma comédia de Allen, mas dessa vez a música está no centro da atenção. O filme é uma obra prima, em delicadeza e caráter, e a trilha sonora é uma pérola, compilando clássicos dos guitarristas de jazz, que deveria fazer parte da discoteca básica dos fãs de jazz.

Allen dirige Penn

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