SPELLBOUND, 1945

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Sexta-feira fui comprar sorvete após o almoço, lá perto do trabalho. Passei na frente de uma banca de revistas e, em meio a zilhões de revistas de sacanagem e DVDs de pornografia, o que vejo? QUANDO FALA O CORAÇÃO (Spellbound) do Hitchcock!! Por míseros 19,90! Ingrid Bergman e Gregory Peck num filme que eu nunca tinha visto, dirigido pelo mestre em 1945. Que presente divino! Na primeira oportunidade me preparei adequadamente para assistir a essa pérola com todo o requinte necessário: quarto escuro, cachorro alimentado e dormindo, travesseiros afofados e telefone desligado. Tem coisas que a gente não consegue repetir na vida. Ver um filme do mestre Hitch pela primeira vez não é todo dia que acontece, então eu tinha que me concentrar para apreender o máximo da experiência.
Um sanatório psiquiátrico. Ingrid Bergman, belíssima, é uma quase frígida psiquiatra freudiana que rejeita todas as investidas de um colega de trabalho. Ela só quer saber de se dedicar a seus pacientes. Até o dia que chega Gregory Peck, o novo diretor do sanatório. Ele chega para substituir o atual diretor, mas logo ela descobre que ele não é quem diz ser e, pior, não sabe quem é na verdade. Os dois se apaixonam à primeira vista e aí ela quer ajudá-lo a qualquer custo. Não vou contar muita coisa pra não estragar o prazer dos outros (apesar do filme ser tão antigo), mas o filme é muito bonito. Gregory Peck está um charme só e tão intenso. Adorei vê-lo!

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Tecnicamente, já em 1945, Hitch ia além do esperado da maneira como filma a seqüência do sonho de Gregory Peck (com desenhos de Salvador Dali – fascinantes!) até o suicídio ao final do filme, com toques de vermelho em poucos frames na hora do disparo do revólver (que aponta diretamente para a tela, numa tomada subjetiva). Também nos closes em Gregory Peck e Ingrid Bergman no momento em que os dois se conhecem. E sem contar a cena deles esquiando que, embora visivelmente artificial (backprojection), tem um charme inegável.
Como o roteiro é super freudiano, não há como não comparar Spellbound com Marnie (meu predileto de todos os tempos). Só que os papéis estão invertidos. Gregory Peck está para Tippi Hedren, assim como Sean Connery está para Ingrid Bergman. É muito legal descobrir os paralelos entre os dois filmes: a artificialidade dos efeitos especiais; o trauma dos protagonistas sendo estimulado por cores (branco no caso de Spellbound e vermelho em Marnie); os amantes como agentes da cura e a descoberta do trauma infantil para ficar bonzinho de uma hora pra outra (aaaah se psicanálise fosse simples assim!) e quem sabe eu não me empolgo, vejo os dois filmes tomando notas e escrevo algo mais detalhado sobre isso. Um dia.

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10 thoughts on “SPELLBOUND, 1945

  1. Uma bela crítica do filme do mestre do suspense. Hilário também você mencionando a atmosfera mais adequada para apreciar o filme (cachorro dormindo e alimentado hahaha).
    Eu pretendo achá-lo nas bancas daqui, fiquei bastante curioso.

  2. Nem acredito que estou escrevendo um comentário sobre um texto saindo do forno do Moa. Quanto tempo não tenho noticias deste amigo internauta que, tal como a Fer, sabe como ninguém traduzir os meandros e mistérios, inda que explícitos, do cinemão. Grande abraço, e quando quiser e puder visite meu “Cinzas de Batalha”, cheio de bobagens do cotidiano, em http://www.marcelobatalha.blogger.com.br

  3. Fezoca, acho que o filme da Ingrid Bergman ao qual você se refere é GASLIGHT ou, em português, “À Meia Luz”. De 1947, com o Charles Boyer (o francês). Ganhou o Oscar de melhor atriz e é bem legal.
    Mas nada se compara à Notorious, que a Rafaela já citou, com Ingrid e Cary Grant (passado no Rio de Janeiro!!). Muito bom! Um dos melhores dos melhores do mestre querido.
    Beijocas!!

  4. Moa , parece mentira mas eu também estava no horário de almoço e vi este filme para vender na banca do restaurante. Lógico que comprei mesmo porque só tinha uma unidade.
    Ainda não assiti , provavelmente hoje eu veja …adorei seu comentário me estigou ainda mais . Será que você poderia escrever algo sobre Festim Diabólico ( Rope )?
    Beijos

  5. Moa, adorei! Estou louca para ver esse filme, mas não passa em lugar nenhum!!! Vou pedir para os meus pais cavocarem as bancas de jornal atrás desse DVD para me mandarem por correio no meu aniversário. Seria um presentaço!!!
    Já sobre as dúvidas da Fer, Ingrid Bergman e Cary Grant atuaram juntos no clássico de Hitch chamado “Interlúdio” (“Notorious” – 1946). Quanto ao outro filme da Ingrid, aquele que o marido tenta convencê-la de que ela está louca, eu lembro de ter assistido. Era a “Semana Ingrid Bergman” no Telecine Classics há uns três ou quatro anos. Eu procurei o filme no IMDB, mas não consegui encontrá-lo. É claro que o Google me deu um monte de opções, mas nenhuma que me desse uma “luz”. Vou ficar ligada no AMC e TCM pra ver se eles passam, porque comigo é sempre assim: penso no filme e a tevê acaba passando. Ai, que medo!
    Abraços pra vocês dois!

  6. Achei excelente esta página, que diria rara em se tratando de textos que tenho lido na internet. Os seus autores, sobre conhecerem bem o cinema, têm observações elucidativas, sem, contudo, a necessidade de obscuridade tão comum para que pareçam profundos. São, isto sim, amantes verdadeiros do cinema. E seus textos possuem estilo, são enxutos, oferecem ao leitor a tão necessária -e cada vez mais ausente – prazer da leitura. Tenho um blog recente, pouca coisa, falo também do cinema. Sou de Salvador, Bahia. Tenho uma coluna no http://www.coisadecinema.com.br e o já citado blog, cujo endereço vai a seguir: http://www.setaro.blogger.com.br/index.html

  7. Moa, eu ADORO o Gregory Peck e tambem [acho] que nunca vi esse filme. Vai ser o nosso classico – voce-ve-e-comenta e eu-vejo-depois-e-concordo, como no caso de Little Foxes.
    Sempre passa na teve um do Hitch com a Ingrid Bergman e o Cary Grant – agora nao vou lembrar o nome. Mas eu nunca vi inteiro…
    E tem outro com a Bergman, que nao sei se eh do Hitch [probably not] onde o marido [um ator frances] faz ela pensar que eh louca… eu achei tao angustiante. Eh a refilmagem de um filme da decada de 30.
    A viagem me cansou pacas, deu pra perceber? Nao estou lembrando o nome de ninguem, estou digitando que nem uma camela bebada [isso voce nao esta vendo, porque eu estou voltando a cada palavra pra corrigir. argh!!!]. Melhor eu ir tomar banho e dormirrrr! 🙂
    beijaooo!

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