[Mais um da série: “Textos velhos dão o melhor caldo”]
Talvez seja a minha passividade excessiva que me faça gostar tanto de ir ao cinema. No cinema eu sou ativo. Eu sou herói, ladrão, amante, aventureiro, assassino, empreendedor. O cinema me salva da loucura da passividade e me desobriga de tomar decisões. No cinema sou homem e mulher, sou criança e sou adulto. Às vezes sou velho, sou branco, preto, amarelo ou vermelho. No cinema falo todas as línguas e vivo todas as vidas nas mais variadas localidades do globo.
Enlouqueço nos olhos vermelhos e lacrimejantes de Brad Pitt em Legends of the Fall ou nos de Michelle Pfeiffer em Dangerous Liaisons. Sou Bette Davis, diva da Broadway em All About Eve ou Matt Dillon, rebelde ansiando por liberdade em Rumble Fish. No cinema a elegância e charme de My Fair Lady Audrey Hepburn atravessam décadas e contagiam a Pretty Woman Julia Roberts enquanto Grace Kelly renasce em Sharon Stone, sempre indiscreta. Quando Keanu Reeves abandona River Phoenix em My Own Private Idaho e aventura-se para fora dos limites de seu palácio em The Little Buddha eu sigo junto, cavalgando a mesma prancha, nas ondas de Point Break. Assim como Meryl Streep eu também tive uma fazenda Out of Africa e viajei o mundo em seus sotaques, perdido em seu magnífico e expressivo rosto. Fiz amor entre Meryl e Sting em Plenty assim como beigei Sean Connery e Tippi Hedren em Marnie.
Welles e Bertolucci se salvaram da loucura fazendo cinema. Eu me mantenho são assistindo a suas obras e fingindo não ser tão passivo, sempre à espera de uma nova experiência cinematográfica. Queria que Joe Dallesandro, caladão e sem camisa, com seus cabelos longos e escorridos viesse me buscar. Juntos nos drogaríamos como em Trash e visitaríamos Sunset Blvd para salvar William Holden dos tiros de Gloria Swanson. Pediríamos a Mia Farrow que nos ensinasse seu truque em The Purple Rose of Cairo e entraríamos na tela de Nobody’s Fool para fazer Melanie Griffith feliz, com ou sem Paul Newman. Eu, Joe e Melanie assistiríamos a Cinema Paradiso em praça pública, sob o céu estrelado, atentos ao Eclipse que traria em Um Trem para as Estrelas Alain Delon e Guilherme Fontes.
Já visitei o Grand Canyon com Susan Sarandon e Geena Davis em Thelma & Louise e já fui à Turquia com Brad Davis em The Midnight Express. Morei com Tim Robbins às margens do Pacífico ao final de The Shawshank Redemption e suguei o sangue de Tom Cruise em Interview with the Vampire. Chorei com Catherine Deneuve em Indochine e briguei com Bruce Willis em Pulp Fiction. No cinema sou tudo isso ao mesmo tempo em que não sou ninguém, não sou nada. Meus olhos não piscam, meus membros não se movem. Os ouvidos parecem dilatar para que o som entre mais claramente e só meu coração acelera, enviando mais sangue para meu cérebro. Me percebo então sentado ao lado de Malcom McDowell em A Clockwork Orange, só que eu estou paralisado não por algum artifício de tortura mas por livre e espontânea passividade.

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4 thoughts on “Louco por Cinema

  1. que texto fantastico, Moa! como que eu nao tinha lido eloe antes? onde voce o guardou? 🙂
    depois de ler isso, so tenho uma coisa a dizer: nos vamos ao cinema juntos, tah? 🙂
    beijao!

  2. Lindo Moa! Maravilhoso…
    Você conseguiu resumir direitinho nesse último parágrafo a maneira como me senti ontem ao ver pela primeira vez o “Hable con Ella”, do Almodóvar. Não dá pra explicar, mas sempre que vejo filmes dele eu acabo chorando. Não é de tristeza, nem é de alegria; é uma sensação inexplicável de assistir a algo que toca a sua alma e entra em seu coração sem pedir as chaves…
    Vou escrever sobre o filme no dia 8, já que tenho um texto especial dividido em três partes para publicar durante a próxima semana lá no Caderno. Coisa triste também, que me fez chorar muito enquanto o escrevia…
    Até lá, continuo vindo aqui para receber essas ótimas indicações cinéfilas.
    Beijos!

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