The Stuff my Dreams are Made of

[Uma vez, há mais de 10 anos atrás, estava me tratando de uma hepatite muito grave e fiquei quatro meses de cama. “Pirei na batatinha” e escrevi o texto abaixo. Hoje, não sei porque, me deu vontade de colocá-lo aqui.]

Pontos de granulação na tela, como sorvete de flocos, onde mergulho e me esqueço. Estradas desertas em descampados imensos. Brasil, Estados Unidos, Austrália, Europa? Eu dirijo a moto e sinto o vento no meu rosto. 2006 d.C., eu tenho 40 anos. Cabelos brancos nas laterais da minha cabeça e o painel de cristal sonoro do computador em minha moto me diz que estou só, em um raio de 800 km. Para onde eu vou?
Sinto braços fortes a me abraçar, vejo olhos verdes como os da Bruna Lombardi e lembro que também esse filme é proibido. Quem estaria atrás de mim? Sinto sua presença e ouço sua voz, potente como a do Bono Vox.
Os pontos na tela…
A granulação aumenta e a estrada fica meio indefinida. Sinto-me dentro de um filme de Wim Wenders, viajando até o fim do mundo, com esse fantasma na garupa. Eu o sinto e lembro dele, mas apenas de seus braços fortes, seu perfume natural, sua energia contagiante. Quem seria?
(01h09min)
O fantasma me persegue incansavelmente. O sorvete de flocos acabou e a moto começa a engasgar. Paro no primeiro posto que também está vazio e pego um pote de sorvete de dois litros. Coloco um litro e meio no tanque e, enquanto tomo o resto, passeio por ali para esticar as pernas. Acho que aqui é a América. Ajusto os controles dos meus óculos para ver se consigo uma melhor definição da imagem mas a granulação continua muito forte. Não dá para ler placa alguma e só a voz do computador da moto me dá alguma pista. A quilometragem rodada e o número de fronteiras cruzadas me faz crer que estou quase lá. Saí do Rio de Janeiro há três meses. Quero chegar a San Francisco antes do Natal.
Já que tomei o sorvete com as mãos preciso pelo menos lavá-las agora para não melar a moto toda. Achei uma torneira de onde sai um fio d’água. Sinto-o novamente perto de mim. Vejo-o ao meu lado e, dessa vez, além dos braços vejo também seu peito musculoso e liso. Mas o rosto abaixado, olhando para o fio d’água que escorre da torneira, está encoberto por longos cabelos finos e lisos. Seria o Joe Dallesandro? Mas ele tinha olhos verdes? Não lembro.
A granulação fica tão grande que nem os óculos parecem funcionar mais. Preciso me distanciar da tela para enxergar alguma coisa mas ao mesmo tempo tenho medo de me perder. Sigo, tateando o ar, até encontrar a moto. Quando a encontro sinto-me mais seguro.
Saí do cinema para respirar, sabendo que acabaria voltando, portanto não tive medo de que algo me acontecesse ou que eu tivesse alguma crise. Fui dar umas voltas na praia, já que estava na Barra. Era a hora do pôr-do-sol: sunset. Eu estava em Sunset Boulevard. Estava? Não lembro ao certo, talvez pense que sim pois passeava pelo calçadão abraçado à Gloria Swanson. Andávamos calmamente, observando o sol em preto e branco que mergulhava no mar cinza e deixava o céu com tons de azul, laranja e vermelho. Lamentávamos a morte do William Holden. Como ele era belo, não? E forte também. Será que era ele quem me perseguia? Não, ele tinha o peito muito cabeludo e nunca o vi de cabelos longos. Se bem que certa vez ele foi obrigado a raspar os pêlos do corpo para aparecer sem camisa na tela… A tela. Acho que preciso voltar, começo a me sentir fraco… Mas Norma Desmond me agarra pelo braço e me sustenta bravamente. “Ainda não, caminhe mais um pouco ao meu lado. Do que falávamos mesmo?” Ah, falávamos que o William Holden tinha virado sorvete de flocos. Coitado. Ele não merecia isso. Qual foi a “causa mortis”? “Hepatite”, ela me disse. “Disseram que ele deveria comer muito doce e ele seguiu o conselho à risca mas esqueceu que tem muita gordura no sorvete de flocos e acabou morrendo. Seu fígado não aguentou… E açúcar, de mais a mais, nunca fez bem a ninguém. Nunca ouviu falar em Sugar Blues? Pois é…”
Hepatite? Pobre William. Eu achava que seu problema havia sido excesso de álcool.
O sorvete no meu bolso começa a derreter e preciso voltar para o cinema. Mergulho direto na granulação dos flocos na tela, assim que me encontro protegido pelo escuro da sala de projeção.
A moto desliza sobre a estrada e vejo o oceano Pacífico à minha frente. Logo estou atravessando a baía de San Francisco, cruzando a Golden Gate Bridge. Sinto os braços que me acariciam e seu peito encostado às minhas costas. Seu cheiro me inebria. Processo Odorama: é só prestar atenção aos números que aparecem na tela em determinados momentos e raspar a parte indicada na cartela que a gente recebe na entrada para sentir aquele perfume. O cheiro dele. Era assim que o Joe, Little Joe Dallesandro, cheirava, tenho certeza. Carne, músculos, sangue. Carne: Flesh.
Reajusto os controles dos meus óculos e sintonizo melhor. Flesh. Agora vejo bem, foi em Paris, atrás do Centre George Pompidou, o velho e adorado Beaubourg, que aliás nem existe mais. Engraçado que hoje todas as construções modernas de Paris tenham sido destruídas e só os prédios medievais continuem de pé. Em todo caso, foi lá que eu conheci Little Joe, “and we took a walk on the wild side”, se é que vocês me entendem. Rue St. Denis, cheia de peep-shows. Entramos numa cabine, mas nada do que acontecia através daquele vidro nos interessava. Pelo menos não a mim, com toda aquela carne à minha frente. Flesh.
FLASH! Luzes fortes, luzes da ribalta, luzes a me cegar. Estou no chão da sala de projeção e tem sorvete por todos os lados, pingando das poltronas, escorrendo pelo chão. Começo a catar os pedacinhos de chocolate ao meu redor mas eles derretem e fico todo lambuzado. Sinto braços fortes a me segurar e imagino se ele não teria voltado para me apanhar. Little Joe, olhos verdes, veio me levar, vamos de moto para Frisco de onde eu não deveria nunca ter saído.
Mas o cheiro não é dele e eu não enxergo nada. Dessa vez não há nem pontos granulados e só distinguo roupas brancas a me segurar e sinto uma agulha a penetrar minha carne. Flesh? Não. Sorvete de flocos! Sinto o frescor e a doçura do sorvete em minhas veias e começo a cair devagarinho, deslizando lentamente, para fora do cinema.
As lágrimas são salgadas e eu preferia sentir o sabor do sorvete, mas já é tarde e tudo o que faço é pôr meu capacete, ligar a moto e ir para casa.
Au revoir.
(13h40min)
Chove. Chove e eu não me importo. Apenas abro a boca e engulo os sucrilhos que caem do céu. Chuva de sucrilhos. Doces e crocantes que me anestesiam. Cadê o cinema? Onde fica o cinema mais próximo? Por isso eu prefiro Paris ao Rio. Lá encontramos cinemas em todas as esquinas. Nada de shopping centers.
Croc, croc, croc. Crocantes sucrilhos que caem do céu. A insanidade não é tão ruim assim, ao final das contas. Mas eu resolvo acelerar a moto: 100 km/h. Os sucrilhos começam a me escapar da boca, não consigo comê-los e começo a sentir dor pois eles são como farpas jogadas no meu rosto. 120 km/h e os sucrilhos começam a me cortar a face. 130, sinto pregos no meu rosto e fecho completamente os olhos. Onde estão meus óculos? 140, o sangue escorre e começo a gritar. Por que não paro? Parece suicídio. Loucura sim, morte não. A mão dele sobre a minha me obriga a desacelerar e frear aos poucos. Mãos grandes, braços fortes. Começo a lembrar do seu nariz. Grande, fino e belo. Algo do Gene Kelly, talvez, mas ainda assim mais próximo do Little Joe.
Qual o filme de hoje? Cheguei atrasado e os créditos já tinham passado. Que importa? O material do qual meus sonhos são feitos está lá na tela de qualquer forma e mergulho com facilidade no sorvete de flocos, ansioso por esquecer as farpas de sucrilho. Meus óculos foram ajustados mentalmente mas a granulação é tão forte agora que começo a misturar lembranças e realidade.

Matt Dillon em Idaho beija Keanu Reeves lentamente enquanto River Phoenix sobe aos palcos da Broadway entre Bette Davis e Marilyn Monroe. Catherine Deneuve beija Vera Fischer, observadas com reserva por Audrey Hepburn que bebe champagne em frente às Lojas Americanas. Anthony Perkins encontra Guilherme Fontes no metrô do Rio e Jeanne Moreau faz amor com Taumaturgo Ferreira na casa de Orson Welles e

eu já estou fugindo do assunto, como sempre, é claro. E por que eu faço isso? Medo, obviamente. Medo, puro medo. Medo de enfrentar a verdadeira realidade que nem é tão dura assim, ou tão real, ou tão verdadeira, mas que é algo que acontece FORA da minha cabeça. Medo de perceber que ele não é unicamente meu. Nunca foi ou será. São apenas naqueles momentos roubados entre uma mulher e outra que eu posso tê-lo para mim. Fugaz. Imprevisto. Etéreo. Sim, seus braços são fortes, seu peito é liso e musculoso, mas nem seus olhos são verdes nem ele canta bem. Nunca conheci Little Joe e o sorvete já derreteu há muito tempo. Não sou louco, não sou poeta. Não sou William Faulkner nem Machado de Assis, é só que o filme acabou, as luzes se acenderam e as pessoas já estão saindo. Eu, sozinho, também me levanto e procuro me misturar à multidão. Odeio acordar. Nem quero te encontrar. Como é terrível não poder mais sonhar. Curado? Eu? Quem sabe?
The End.
(23h30min)
Rio de Janeiro, 29 de novembro de 1993.

“Um dia você se dará conta que a vida toda é realmente cinema.
E o cinema é um excelente meio para se vingar da vida.”
Orson Welles.

2 thoughts on “The Stuff my Dreams are Made of

  1. Maravilhoso, Moa! Parece até um dos meus sonhos estranhos, mas não tenho a sorte (?!) de ver o Joe. É sempre gente estranha, tipo o baterista do Skank vestido de Mandrake ou aquele cara engraçado do Outkast… ;o)
    Concordo com a Bia. Traz mais textos pra gente, traz!

  2. Moa, q tal resgatar outros textos antigos? tenho certeza de q são muitos e ótimos como este.
    Beijocas

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