(Texto escrito no ano de 2000, quando eu morava em Porto Alegre. Foi um post em uma lista de discussão. Achei que valia a pena colocá-lo aqui.)
Segunda-feira de ressaca. Tédio. Final de férias. Quando acaba essa monotonia? Me sinto impaciente com minha vida. Fico irritado por qualquer coisa. Ontem saímos de casa quase meia-noite. Fomos a um bar, encontramos amigos e quase duas da madruga fomos parar em uma boate. Três horas eu disse, “Você tem que trabalhar amanhã, vamos embora”. Chovia e andamos algumas quadras até o ponto de ônibus. Ficamos parados embaixo da marquise de um prédio até quatro e meia da manhã, rezando para que um taxi aparecesse. Quando finalmente chegamos em casa eu estava molhado e com frio. Hoje levantei ao meio-dia com a casa vazia e louça pra lavar na pia. Liguei a televisão pra ver Martha Stewart Living e me embriagar com a perfeição e a casa dos sonhos. Era reprise. Já vi isso, droga… zap, zap, zap… mudando de canal vi pedaços de um documentário sobre rinocerontes e aquela porcaria que é Miami Vice. Zap, zap, zap… no Telecine Emotion tá começando “Chasing Amy”. Já vi esse filme. Tem tempo e foi muito legal. Vamos ver de novo. No meio do filme me dá fome, já são três e tanto da tarde. Miojo com molho shoyo e kani com ajinomoto. O filme é meio falação demais mas tem uma cena maravilhosa de uma homenagem ao meu filme predileto do Steven Spielberg: Tubarão. Lembram quando eles estão no barco, os três (Richard Dreyfuss, Robert Shaw e Roy Scheider – todos com os nomes começando com R, engraçado, não?) e o Richard e o Robert começam a contar histórias de como conseguiram suas cicatrizes em lutas com tubarões, enguias e outros perigos do mar e da vida. Eles vão contando as histórias e mostrando as cicatrizes. Até que ficam com as pernas em cima da mesa e, bêbados, riem de suas aventuras e batem na mesa às gargalhadas enquanto Roy Scheider, num canto, olha escondido pra uma pequena cicatriz na barriga. Em “Chasing Amy” Ben Affleck e Jason Lee estão num bar e o Ben tá afim de uma menina (como é o nome dela? No filme é Alyssa Jones, mas o nome da atriz eu não lembro). Só que a tal Alyssa é gay e o Jason Lee fica interessadíssimo nas histórias dela. Ele faz as perguntas mais indiscretas do mundo e o Ben fica todo encabulado, num canto, se sentido estranho. Sentam-se os três à mesa e a composição do quadro é idêntica a da tal cena no filme do Spielberg. O Jason Lee começa a falar das cicatrizes que ele ganhou ao praticar sexo oral em algumas mulheres (sempre acontecia algum acidente estranho e ele se machucava). A Alyssa também tinha mil e uma cicatrizes de acidentes envolvendo sexo com mulheres. Eles comparam as cicatrizes e termina a cena com a perna dela sobre a mesa, eles dando murros na mesa, às gargalhadas e o Ben Affleck num canto, olhando uma pequena cicatriz no braço, sem falar nada. Eu amei enxergar essa homenagem indireta ao filme do Spielberg mas fico agora achando que o Kevin Smith, diretor de Chasing Amy, comparou as mulheres aos tubarões. Que perigo, hein? E os dois que contavam suas aventuras sexuais estavam falando, na verdade, de “caças” e “presas”. Ah, sei lá. Deve ser o tédio, mas a idéia que me fica é que viver é um eterno risco e pra se aventurar e “have some fun” a gente pode ter que ficar muito tempo embaixo de chuva e até ganhar algumas cicatrizes. Nem que seja no coração (que segundo o Richard Dreyfuss em Tubarão foi a maior cicatriz que ele ganhou e não foi de nenhum tubarão mas de uma mulher).
Às feras! Hic!

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