I’ve been tasting roads all my life.
This road never ends.
It probably goes all around the world.

River Phoenix as Mike in Gus Van Sant’s
My Own Private Idaho, 1992.

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Anos atrás escrevi um trabalho para um curso de literatura americana sobre Huckleberry Finn, o herói de Mark Twain que atravessa o rio Mississipi em busca de liberdade e salvação, acompanhado de um escravo fugitivo. Considerado com o grande romance americano, Huck Finn foi pioneiro ao demonstrar em suas fugas para o rio que a liberdade e o melhor da vida estavam fora da sociedade, longe das cidades.
O cinema conseguiu transportar a idéia de Mark Twain para os road movies, quando protagonistas de inúmeras histórias se aventuram estrada a fora para se libertarem das amarras da sociedade e seus padrões. Só na estrada eles podem expressar suas opiniões, seus medos, seus anseios. Dennis Hopper, Peter Fonda e Jack Nicholson são violentamente castigados por moradores das cidades por onde passam em Easy Rider (1969). Ao se refugiarem na estrada, ao redor de uma fogueira, Dennis Hopper comenta o quanto aquelas pessoas pareciam amedontradas com suas presenças e Jack Nicholson responde, “Elas se tornam perigosas, isso sim.”
O perigo pode vir dos dois lados, já que no caso de Geena Davis e Susan Sarandon elas é que se transformam em perigosas criminosas ao se aventurarem pelas estradas em Thelma & Louise (1991). Tudo o que Thelma e Louise procuram é liberdade, ar puro, escapismo dos controles e pressões do dia a dia em sociedade, com suas regras, normas e condutas pré-estabelecidas. O fim é quase idêntico ao de Easy Rider, se repararmos bem.
Em My Own Private Idaho River Phoenix vive à margem da sociedade, não importa em qual cidade ou vilarejo se encontre. O único lugar onde ele consegue se expressar melhor e se sentir inteiro é na estrada. Assim como Huck Finn que consegue expressar sua amizade pelo escravo fugitivo e superar preconceitos raciais, quando em viagem pelo rio, River Phoenix declara seu amor pelo amigo Keanu Reeves em torno de uma fogueira num acampamento muito similar ao dos rapazes de Easy Rider.
Não há nada mais americano do que a busca de novas fronteiras, o desbravamento da terra desconhecida e a busca da liberdade. Land of the free, home of the brave. John Wayne e Montgomery Clift guiando o gado numeroso através do terreno inóspito em Red River ou Tom Cruise e Nicole Kidman correndo pela conquista de terras em Far and Away, a história se repete infinitamente.
Ainda hoje o que vem à mente quando pensamos na costa leste dos Estados Unidos é a força de trabalho, o “nervosismo” da cidade grande, a briga e a competição pelo espaço e pelo destaque. Já a Califórnia, na costa oeste, é o símbolo dos vastos espaços, ar puro, sol, palmeiras e a visão do mar que nos dá liberdade e a sensação de conquista.
Quem quiser me entender melhor é só assistir a todos esses filmes, ler Huckleberry Finn de Mark Twain e, é claro, On the Road de Jack Kerouac. Se ficarem muito inspirados, recomendo também a leitura de Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas de Robert Piersig. Um clássico da estrada.
Boa viagem.

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Tomada final de Easy Rider, conseguida quase que por acidente, conforme conta o fotógrafo Laszlo Kovacs no “making of” que acompanha o DVD do filme. A estrada de asfalto é o caminho construido pelo homem. O rio é o caminho construido pela Natureza. Ou, como alguém disse, o rio é uma estrada que se move.

2 thoughts on “On the road again

  1. Moa.
    Um veradeiro ensaio. Mas penso que fora estes clichês do cinema americano, também há road movies no oriente.Os mestres zens, que andavam a pé….Mas o americano não andam a pé, eles querem poluir… Alguém pode imaginar que andar a pé polui? Mas os poetas e mestres andavam sem destino, também, no Japão antigo. Mas o que vem a mente da gente é naturalmente o cinema americano e a cultura americana. Que não é de se jogar fora, mas ocupa todos os espaços.Não consigo lembrar de algum filme oriental que tenha sido feito sobre andar a pé, mas algum deve existir.
    Abraços e parabéns pelo belo ensaio.
    joão antonio, que anda o máximo que pode a pé.

  2. Moa, q delícia de fotos!!!
    deu até vontade de ver esses filmes..já pensou uma sessão especial com essa trilogia?
    Beijocas

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