Editando Orson Welles

Quando Orson Welles terminou as filmagens de Touch of Evil (Marca da Maldade) e entregou o “copião” do filme (todas as cenas filmadas, com instruções de montagem) para a Universal, partiu imediatamente para o México, para procurar locações para seu filme seguinte. O estúdio montou algo que Welles odiou e ele, então, escreveu um memorando de 58 páginas, dizendo exatamente o que gostaria que fosse mudado, o que, obviamente, não aconteceu. O estúdio mandava nos filmes (ainda manda, eu acho) e ele já não podia fazer mais nada.
Em 1975 fizeram uma “nova” versão, mais longa, colocando cenas que o estúdio havia cortado fora. Mas ainda não era a versão que Welles queria. Assisti um documentário sobre a “reconstrução” do filme, seguindo o tal memorando de 58 páginas deixado por Orson Welles.
Várias modificações foram feitas, inclusive na trilha sonora. É como se o filme inteiro fosse re-editado (o que, de fato, aconteceu). Só que Welles esta morto há não sei quanto tempo e é uma idéia estranha pensar que nunca será possível ver o filme exatamente como ele queria. A versão que conhecemos é uma versão que o estúdio montou. Outros de nós devem conhecer uma versão um pouco mais longa e agora podemos ver essa, mais curta, mais sutil, aparentemente mais inteligente e eficaz, montada de acordo com instruções do diretor. Mas… quem garante que era isso mesmo o que ele pensava?
Esse documentário mostra a diferença entre a nova versão e a outra e como um simples close up, ao ser removido, muda toda a forma de “leitura” de um personagem. Ou ainda, como um olhar de outro personagem, visto em uma nova montagem (em outra sequência, diferente da “velha”), ganha um novo sentido, muito mais sofisticado e até mesmo bonito.
O documentário tem a participação dos astros Charlton Heston e Janet Leigh e também dos diretores Peter Bogdanovich, Curtis Hanson, George Lucas e Robert Wise. Procurem ver Reconstructing Evil (Reconstruindo um clássico: A Marca da Maldade). É fascinante! Na sequência, é claro, vejam o filme todo. MUITO BOM! Inovador e ainda moderno, mesmo tendo sido filmado em 1957.
Uma pequena nota: Heston é maravilhoso e fez GRANDES filmes. Já Janet Leigh nunca foi minha atriz predileta mas ela entrou pro meu rol de inesquecíveis por apenas dois filmes: A Marca da Maldade e Psicose. Acho que ela está perfeita nesses filmes.

3 thoughts on “Editando Orson Welles

  1. Tá… Charlton Heston é (foi) realmente um ator diferenciado, mas ainda assim um grande canastrão, não achas? Do El Cid a aquele do ´soilent green´, passando pelo indefectível Planeta dos Macacos (aliás, que grossura aquela refilmagem, eh), era indubitavelmente C.H. E canastra. 😉

  2. Eu sempre achei que o diretor mandava em tudo na hora de editar um filme. Acho que agora mudou bastante, mas esse Orson Welles so deu azar, hein? Tudo o que ele fazia dava polemica… 😉
    Nunca tive muita simpatia pelo Charlton Heston…
    beijao!

  3. Com o Soberba aconteceu um processo semelhante e parece que até bem mais severo. O filme foi totalmente tesourado em possivelmente belos planos-sequência sem a menor concordância do Welles.

Comments are closed.