Summertime – o filme da minha vida

Às vezes eu estudo os filmes como se fossem obras para serem analisadas e apreendidas. Repito cenas para perceber os cortes, enquadramentos, duração das tomadas e os movimentos da câmera. Procuro perceber que aspectos da linguagem cinematográfica foram utilizados pelo diretor e roteirista para explicitar esta ou aquela intenção. Outras vezes eu vejo filmes pelo puro e simples prazer de vê-los. Numa dessas eu descobri o filme da minha vida.

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Summertime, de 1955, dirigido por David Lean e estrelado por Katharine Hepburn é o meu filme predileto. Eu sei que é estranho dizer isso depois de tantos anos dividido entre Sunset Blvd e All About Eve, trazendo ainda na esteira uma paixão por Breakfast at Tiffany’s, obcecado por The Birds e, principalmente, Marnie, além de venerar Rumble Fish. Com tantos filmes brilhantes para me assombrar, por que esse, então?
Poderia dizer que a “culpa” é do diretor. Afinal, David Lean é um cineasta cheio de estilo, charme e elegância. Mas aí eu teria que dizer que Lawrence of Arabia e Doctor Zhivago são filmes superiores e bem melhores que Summertime. É verdade. E se eu disser que a responsável é Katharine Hepburn? Ora, ela nunca me fascinou tanto quanto Bette Davis, Audrey Hepburn ou Meryl Streep. E ela tem atuações muito mais famosas e veneradas em outros filmes. Por que, afinal das contas, Summertime é o filme da minha vida?
Uma mulher solteira, com mais de 40 anos de idade, vai para Veneza sozinha, em busca de algum milagre que a fizesse “acordar para a vida”. Esse desejo não é consciente. Ou será que é? Ao chegar em Veneza, com sua câmera filmadora em mãos e um misto de excitação e medo pelo desconhecido, começa a se aventurar pelos meandros da cidade até conhecer um charmoso quarentão italiano. Ela se apaixona. O romance é arrebatador. Mas ela sabe que mesmo que ele estivesse disponível – e ele não está, pois é casado – ainda assim seu lugar não seria aquele. Ela estava de passagem e levaria de Veneza apenas a lembrança de momentos felizes e outros nem tanto. A viagem como forma de amadurecimento, encontro com o eu, liberdade, marginalidade, estranheza e familiaridade. Sentimentos tão similares aos que senti em minhas próprias viagens ao exterior. Eis a razão.

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David Lean nos presenteia com o mais belo filme jamais feito em Veneza. Suas gôndolas, pombos, canais, construções antigas e pontes que irradiam romance e sensualidade. Rossano Brazzi é o italiano mais charmoso e sedutor que se pode imaginar depois de Marcello Mastroianni. Não sei que outros filmes ele fez, mas esse já bastou para que ele deixasse sua marca em celulóide. E Katharine Hepburn nunca esteve tão linda, tão vulnerável, tão real. Seus olhares, gestos, cada pequeno movimento, parecem comunicar o desejo de encontrar a si mesma. A mais fotogênica de todas as estrelas hollywoodianas, embora certamente não fosse a mais bela. Seu rosto anguloso, seu perfil de traços fortes acentuados pela idade, nos faz olhar para ela e pensar que nunca uma americana poderia combinar tanto com Veneza e seus habitantes.
Uma viagem ao desconhecido, rumo ao despertar. PRECISO ir a Veneza. Foi lá que eu me perdi.

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12 thoughts on “Summertime – o filme da minha vida

  1. Fer, fico feliz que você tenha gostado desse filme tanto quanto eu. Fora o fato de que você conhece Veneza e eu ainda não. Fico mais feliz ainda de saber que nada mudou na cidade. :ˆ))
    Que coisa mais mágica é o cinema, né? Eu fico sem palavras diante das sensações que filmes como esse me causam.
    E o Cinefilia é um blog delicioso mesmo, modéstia a parte, onde a gente pode voltar e reler nossas histórias de paixão cinematográfica. Hehehe.
    Beijão!

  2. Moa,
    No seu post de 2003 sobre o filme eu comento que ja vi e neste de 2005 eu digo que vi partes, mas sinceramente nao me lembrava de ter visto esse filme nunca, nem inteiro, nem partes e ontem a noite vi como se fosse a primeira vez e me encantei. Chorei no inicio quando ela chega em Veneza, porque parece incrivel, a cidade continua muito igual! Claro que por exemplo o “onibus” [que agora se chama vaporetto] se modernizou, mas a cidade parou no tempo. E a historia é linda, linda! Katharine Hepburn esá perfeita e o Rossano Brazzi está um charme! Lembro dele na versão 1940 de Little Women, nada mais. Que bom poder reler este seu post no Cinefilia, agora com outros olhos. 🙂

  3. Ei, ei, como eu sempre volto a ler posts antigos que eu já li antes:-)) (meu preferido atual é o Super duper Gary Cooper:-) – vim aqui só pra dizer;
    Aê Auricelia, toque aqui e gimme five;-) Gone with the wind é , foi, será e sempre será o filme da minha vida, embora eu possa até gostar muito mais de outros.
    É bom reconhecer uma GWTWer;-)
    beijo

  4. Nao entendi nada. Esse blog é de Fernanda ou da MOA?
    Summertime é um filme lindo que vi na TV de assinatura faz alguns anos. Mas ler esses comentários sobre o filme me fez lembrar detalhes que passaram desapercebido, na ocasião. Quero reve-lo.
    Liliane

  5. Olá, Moa. Lembro-me de ter visto este filme há tempos. Não é o filme de minha vida (o meu é E o Vento Levou), mas me lembro de ter justamente reparado na beleza dos dois e dos lugares em Veneza. Foi bom demais ter lido seu ótimo texto. Vou ver o filme de novo, valeu a sugestão. Abração.

  6. Aê, Moa, voltei a ler, e Rossano Brazzi é o latin lover por excelência: ele é o furor em Candelabro Italiano, só para começar.
    O Marcello é o italian lover universal.
    O Rossano era o latin lover para moçoilas e solteirosnas incautas.
    Sad but true;-)
    Beijos, que vou pro Cahtterbox e ainda vou roubnar o o superduper Gary Cooper;-))) obra-prima de criatividade da Fezoca.
    Ueêêbaaaa!

  7. Moa, Moa, Moa
    Oh my god, oh maigosh, ohmaigod!
    Eu nunca disse (besta que sou, eu ia dizer naquele post da Tippi Hedren atravessando a rua, vc sabe) que o que me fascina em você é esse amor-ofício, amor-exercício que eu respeito e reconheço em poucas pessoas.
    Este post seria só por isso já um dos posts da minha vida, aqui no Cinefilia que voce e Fezoca transformaram no blog da minha vida, ela sabe.
    Mas agora, eu vi/li uma das maiores declarações de amor ao cinema.
    Segundamente, David Lean – é o rei dos épicos, dos grandes planos, mas quando eu vejo, por exzemplo Desencanto eu sei o que quer dizer linguagens cinematográficas diferentes num mesmo cineasta.
    E quis me basear nisso para responder , mas aí vi uma coisa: EU NUNCA VI ESSE FILME!!!!
    Nunca, nunca, nunca. Dos filmes sobre esse tema que é uma tema recorrente para cienastas prncipalmente os europeus – eu lembrava de vários, inclusive aquele com a Maggie Smith – grande atriz hein? e outros varios até aquele com a Kirstin Thomas-Scott(sp?) e que tem o meu amado bad boy Sean Penn.
    Mas esse, querido, eu nunca vi.
    E fico feliz por isso.
    Pois agora vou vê-lo e tomo por empréstimo teu amor por ele, teus oçhos e teu7 afeto.
    E depois há quem queira explicar a magia do cinema.
    Estupendamente maravilhos este post
    beijos
    Meg Sue

  8. * nossa, tah dificiR postar comentarios aqui.. e eu nao sei o que fazer pra evitar isso… vamos la, de novo…
    ….
    Moa, nunca vi esse filme inteiro. Ja vi partes e o final. A Hepburn esta LINDA mesmo e as paisagens sao … sao.. Veneza! 🙂 Em parte eu tbm viajo sozinha, mas nao eh a mesma coisa, apesar que eu tenho a minha camerazinha so no clicclicclic! beijaOO! 🙂

  9. Que lindo, Moa. Nunca vi Summertime, mas já estou colocando na minha lista do Netflix!!! Essas fotos estão maravilhosas, e eu acho Veneza um dos lugares mais lindos e românticos do mundo.

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