The Magnificent Ambersons

De todos os episódios da história do cinema, o que mais me fascina é sobre o filme The Magnificent Ambersons que Orson Welles dirigiu em 1942.

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Welles tinha 26 anos na época e era um garoto prodígio que havia feito enorme sucesso no rádio e havia fundado um grupo chamado The Mercury Theater composto por nomes como Joseph Cotten e Agnes Moorhead. Em 1941 foi para Hollywood onde inovou e mudou a maneira de se fazer filmes com Citizen Kane, até hoje considerado o melhor filme de todos os tempos pela maioria dos críticos. Utilizou recursos que nunca haviam sido explorados, focando mais de um plano ao mesmo tempo, por exemplo. Seus novos colegas de indústria, que já estavam no negócio há anos, odiavam Welles pela sua petulância, genialidade e o vaiaram durante a cerimônia de entrega do Oscar na qual Citizen Kane havia sido nominado em diversas categorias.
Como seu segundo filme, Welles escolheu um romance que falava da mudança que a sociedade sofreu com o surgimento do automóvel e da queda de uma família rica e suntuosa em Indianápolis, que se recusava a acompanhar seu tempo. Ao usar parte de sua trupe do Mercury Theater e um magnífico trabalho de câmera e iluminação, criou um filme sombrio, dramático e fascinante. Utilizou uma mansão para as filmagens numa época em que ainda se usava apenas cenários de estúdio e movimentou uma enorme câmera por três andares em tomadas longas e elaboradas (era 1942 e os equipamentos eram outros, nada a ver com as steady cams atuais).
Pouco antes de terminar a edição do filme, Welles foi chamado pelo governo americano para fazer um documentário no Brasil e assim começou o fim de The Magnificent Ambersons. Desde então Orson Welles nunca mais foi o mesmo e sua fama de diretor que não conseguia terminar um projeto se espalhou e Citizen Kane permanece seu único filme realmente respeitado (com a possível exceção de Touch of Evil, e ainda assim depois da reconstituição feita em 1998, anos após sua morte).
Em 1942 o editor de The Magnificent Ambersons (que no Brasil se chama Soberbaargh! odeio esses títulos mal traduzidos…) foi Robert Wise que viria a dirigir West Side Story e The Sound of Music anos depois. Ficou a seu encargo editar o filme segundo instruções de Welles. Uma cópia de 132 minutos foi feita e após um primeiro corte a mando do próprio Welles, houve uma exibição em Pomona, um subúrbio de Los Angeles que era muito usado na época para testar a aceitação dos filmes. Dependendo da reação da platéia, modificações eram feitas ou não e depois o filme seria lançado nacionalmente. São os chamados test screenings (projeções teste). Imaginem agora uma platéia de adolescentes, estudantes do ensino médio, em meio à segunda guerra mundial, vendo um filme denso e sombrio sobre o declínio de uma família americana. O filho único dos Ambersons é apaixonado pela mãe que, ao ficar viúva, volta a namorar um antigo pretendente atualmente um bem sucedido empresário do ramo automobilístico. Junte-se uma tia solteirona a fazer intrigas pelos cantos e a progressiva miséria na qual os Ambersons se encontram, com mortes sucessivas até a perda da mansão da família. Definitivamente não era um filme para essa platéia. O estúdio, RKO, que havia produzido Citizen Kane e tinha Welles sob contrato, resolveu fazer diversas modificações.
Orson Welles, no Rio de Janeiro, filmando o também inacabado It’s All True (que só foi terminado anos depois, por outras mãos) escreveu inúmeros telegramas para Robert Wise, instruindo-o sobre a edição do filme, mas nada conseguiu. No final das contas o estúdio mandou refilmar a última cena para dar um toque mais “pra cima” e diminuiu o filme para 88 minutos. O restante do negativo do que havia sido a versão completa do filme foi queimado, segundo se diz. Até hoje especulam onde estariam estes “restos”, caso existam ainda. Até aqui no Rio já se procurou pela cópia de 132 minutos de The Magnificent Ambersons e nada foi encontrado. Cineastas famosos como William Friedkin e Peter Bogdanovich entre outros são ardorosos fãs do filme e sonham em encontrá-lo.
Nos Estados Unidos, segundo minhas pesquisas na internet, só está disponível uma cópia em VHS da Turner Classic Movies, mas na amazon.com é possível encontrar uma cópia em DVD que foi lançada aqui no Brasil pela Continental Home Vídeo. Eu encontrei esse DVD em São Paulo, por míseros 20 reais, e me deliciei ontem com os 88 minutos truncados e recortados do que resta desta obra-prima. A cena final é tão claramente refilmada que chega a chocar. A iluminação é outra, o trabalho de câmera é outro e mesmo o diálogo entre Joseph Cotten e Agnes Moorhead parece distorcido e fora de contexto. O que se pode fazer, então, é assistir a pouco mais da metade do filme e imaginar como teria sido The Magnificent Ambersons em sua versão integral, de 132 minutos. Algumas cenas permanecem intactas como o passeio de carro pela neve e outras foram infelizmente mutiladas como o tão falado baile do início do filme.

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Ainda assim é fascinante observar a câmera de Welles, a cena do baile com seus diálogos superpostos, a cena do funeral com a câmera dentro do caixão num ponto de vista nada ortodoxo, as interpretações de Cotten e, principalmente, Moorhead (que foi premiada pela associação de críticos de Nova York e indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante) além de pensar ao longo do filme na capacidade dos gênios – nesse caso Orson Welles – em criar realidades, contar histórias e sua inabilidade em transformá-las em obras acabadas.

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Fica um gostinho de quero mais, já que o filme não tem sequer 1h30 de duração e o pioneirismo de Welles, que foi homenageado na cena de abertura de The Player do Robert Altman pode ser apreciado, por exemplo numa magnífica cena entre Agnes Moorhead e Tim Holt. Primeiro vemos Isabel e seu irmão entrarem em uma sala no primeiro andar da mansão. Estamos no alto de uma escada. A câmera sobe e vemos George, filho de Isabel, do outro lado da escadaria. A câmera continua subindo e lá está Fanny, tia de George. A conversa que se segue entre sobrinho e tia é dominada pela interpretação de Moorhead e pelo passeio da câmera, seguindo-os, escada acima e abaixo. Para ver e rever, repetidas vezes.

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5 thoughts on “The Magnificent Ambersons

  1. Tô aqui pra comentar de novo, que é um post magnifico para um filme magnífico .
    SOBERBA sempre me pareceu um título ambíguo, para além de ruim, embora guarde correspondência com o tema.
    Mas Welles prova com esse filme, hein, Moa e Fer , o que vcs acham? que ele não cineasta de um filme só.
    Este filme é fantástico, e ele faria outros muitíssimos bons, mas todos insistem em só lembrar de Cidadão Kane.
    O que é que eu posso fazer?;-)))
    beijo, beijo, minha dupla favorir=ta.
    Beijos
    M

  2. eu adoro o Joseph Cotten!
    na Netflix tem uma refilmagem, feita em 2002 pelo Alfonso Araus. ja sabe o que eu acho de refilmagens, neh? pelo jeito vou ter que comprar se quiser ver esse filme [ou apelas pra Blockbuster, sera?]
    beijos!

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