Repetições cinematográficas

Ver um filme é ver algo que já aconteceu. Um filme que fala de filmes é ainda mais repetitivo. Eu vejo o mesmo filme várias vezes. Ontem comprei um filme que eu nunca tinha visto, mas tive a sensação de que já o tinha visto. Ele fala de filmes. Fala da paixão pelo cinema. Fala de sexo e política e se passa entre fevereiro e maio de 1968 em Paris. Estou falando, é claro, de The Dreamers do Bernardo Bertolucci (2003). E só para não deixar de ser repetitivo, como sempre digo, quando gosto demais de um filme fico sem palavras e não consigo expressar tudo o que sinto.
The Dreamers é uma jóia cinematográfica, uma pequena pérola que eu vou rever zilhões de vezes e me transportar para Paris e confundir 1968 com 1993, quando eu estive lá pela primeira vez e corri pelo Louvre, vi inúmeros filmes nas primeiras fileiras, descobri o quanto sexo pode ser bom e aprendi que até eu sou um ser político. Então, como não gostar de The Dreamers que começa na Cinemathèque Française, um lugar onde eu me emocionei passeando pelos cenários de O Gabinete do Dr. Caligari, numa volta ao mundo do cinema? Como não gostar de um filme que mostra a experiência de um estrangeiro em Paris, convivendo com os sanduíches, vinhos e costumes franceses (a ausência de um vaso sanitário nas salles de bain, por exemplo)? Como não gostar de um filme onde um jovem tímido e cheio de bloqueios se descobre envolvido emocionalmente com uma moça e um rapaz, irmãos gêmeos e vive o turning point de sua vida?
O americano e os gêmeos franceses brincam de re-viver os filmes. Ela é Greta Garbo num momento, Marlene Dietrich em outro. Os rapazes debatem sobre quem é mais engraçado, Buster Keaton ou Charlie Chaplin. Quando alguém não consegue responder às charadas cinematográficas deve pagar por isso. Os “castigos” são quase sempre sexuais e o americano se vê cada mais envolvido pelos dois irmãos. Não vou estragar o filme para quem ainda não viu. Mas é importante dizer que tudo é muito erótico, explícito e envolvente.
O elenco formado pelos jovens Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel é talentoso, bonito e cheio de intensidade. Eles se entregam a Bertolucci sem medo. E nos arrastam atrás de suas descobertas.
A montagem é brilhante e Bertolucci não tem medo de declarar seu amor pelo cinema. A cena em que eles correm pelo Louvre, querendo quebrar o recorde das personagens de Bande à part (Goddard, 1964) é magnífica, pois vemos cenas do filme original entremeadas com as mesmas tomadas feitas por Bertolucci. Poesia cinematográfica em estado puro.
Aliás, Bertolucci me emocina profundamente. No making of que vem no DVD ele diz, Fazer cinema me mantem vivo. E para sobreviver eu tenho que pensar imediatamente no próximo filme que vou fazer. Para quem viveu os momentos históricos de maio de 68, a revolução dos estudantes, este filme é obrigatório. Para quem não viveu e quer ter um gostinho de como foi, este filme é obrigatório. Para quem reconhece por experiência própria o valor de uma viagem de descobertas ao exterior, este filme é obrigatório. Para quem quer saber o que está perdendo por nunca ter se aventurado, este filme é obrigatório. Para os amantes de cinema, este filme é obrigatório. Para quem quer aprender a gostar de cinema, este filme é obrigatório.
Para não deixar de ser repetitivo, este filme é obrigatório.

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7 thoughts on “Repetições cinematográficas

  1. Moa, pra variar não encontrei o filme nas locadoras daqui do Embu. Mas, já pedi para comprarem… EU QUERO MUITO VER ESSE FILME!!!Sniff, sniff… só chorando mesmo!! P.S.: Moa, o Mikadogs só mudou de nome mas ainda tem muito assunto sobre cachorrinhos, vida e também o tricot. Fica meu convite para vc visitar a casa de vez em quando.

  2. Fer,
    eu gosto desse filme porque ele me remete aos questionamentos que eu e meus amigos tinhamos nessa época, 1968, que vivi intensamente – era jovem e queria mudar o mundo.
    O cinema era uma janela aberta para ideias que complementavam as nossas, o Cahier du Cinema era a ‘bíblia’ cultural dessa geração, junto com a Planète…As duas chegavam com dificuldade em nossas mãos mas chegavam.
    Nós éramos como aqueles tres jovens, um pouco presunçosos e metidos a sabidos, claro – mas nosso amor ao cinema era sincero, verdadeiro. E incondicional. O cinema de uma certa forma nos libertava.
    Todos frequentavamos cine clubes – eu dirigia um, imagine!
    Então é comovente ver o filme e as homenagens aos nossos diretores ícones. É como se ele estivesse fazendo aquilo em nome de todos nós, os hoje coroas da geração de 68.
    Eu faço parte dela, com muito orgulho, viu Fer?
    Minha identificação com esse filme é total.
    Beijo querida!
    Você é um “brotinho”!

  3. eu nao queria ser do contra, mas achei esse filme uma chatice irritante. muito presunçoso e artificial. ajudou o fato de eu detestar esse atorzinho que faz o americano bobo…. beijos!

  4. Ah, eu também amei!
    Já vi algumas vezes para identificar as cenas, A Rainha Cristina foi a primeira.
    Emociona a delicadeza e a compreensão do cinema.
    Bertoluci é sempre digno e sensivel, dos preferidos…
    A direção de atores é genial, os meninos estão entregues, como você disse. Eu era daquela idade em 68, tambem apaixonada por cineclubes, Cahier du Cinéma, me vi ali naquela casa, meu pai era extamente como o pai dos gêmeos! ahahahaha
    Beijo, adorei o post!

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