Possessão – o filme da minha vida

Você já amou alguém tremendamente e, quando esse amor foi caindo na rotina e a sensação de perda e falta foi aumentando horrivelmente, você sentiu um certo despreso por esse amor? Você já traiu seu amor e depois se sentiu violentamente culpado por isso? Você já sentiu um certo asco ou nojo da pessoa que mais ama nesse mundo? Você já pensou que seu casamento deveria sofrer uma mudança RADICAL, igual a nenhuma outra, para que ele pudesse se renovar e voltar a funcionar? Nem que para isso você precisasse sacrificar diversas coisas? Você já percebeu quantos monstros a gente pode criar em nossas mentes e que fazem parte do nosso cotidiano, por não sabermos lidar com a culpa, o medo, a solidão, a rejeição, o desejo, a luxúria, as expectativas e tantos outros sentimentos que estão profundamente arraigados em cada um de nós?
Se você respondeu “sim” para a maioria das perguntas acima, o filme da sua vida é Possessão que o polonês Andrzej Zulawski escreveu e dirigiu em 1981. Daria para ver esse filme apenas como um filme de horror, afinal a personagem principal tem um caso (sexual) com uma criatura monstruosa que come pessoas e tem diversas cenas pra lá de bizarras e de fato “horrorosas” ao longo de todo o filme.
Mas quando o filme terminou eu tava com uma vontade tremenda de vomitar e aquelas imagens não saíram da minha mente mesmo agora, 24 horas depois. Zulawski nos assombra com seu trabalho de câmera, com o uso de um vermelho alaranjado que nos persegue o filme inteiro, com uma história hipnótica e com interpretações realmente inesquecíveis e raramente vistas de Sam Neill e, principalmente, Isabelle Adjani. Eu já li sobre esse filme há muito tempo atrás e era mais um na minha lista dos ansiosamente aguardados. Fiquei um pouco incomodado durante o filme por não entender algumas coisas no roteiro. Uma personagem de perna quebrada a troco de nada, um amante que parece querer seduzir o marido da amada, meias cor-de-rosa num funcionário do governo e outras coisas que não significam coisa alguma. Um bando de MacGuffins, diria Hitchcock. Entretanto, não consegui me desligar do filme. Estou louco para revê-lo.
E foi lendo algumas opiniões que me toquei do quão próximo esse filme é da minha vida. Possessão é um filme sobre o casamento. Você se casa e quer que o seu casamento dê certo, é claro. Mas, como dizem por aí, casamento foi feito para dar errado. Só dá certo se houver uma mudança constante. Quando a rotina começa a massacrar, o sexo não tem mais a mesma paixão, as tentações de novidade rondam a integridade do casamento, o monstro da separação começa a crescer. Para que as coisas voltem a funcionar a gente precisa mudar. Mudar ao ponto de virar outra pessoa. Aprender a se doar, a engolir uns sapos e cuspir outros bichos escrotos.
Anna, a personagem de Adjani, está empenhada em conseguir sua mudança. Já existe uma nova Anna, toda angelical, pronta para assumir o papel de mãe e esposa. Agora falta criar um novo Mark, um novo marido. E a dor desse parto é monstruosa. Ela chega a abortar (você nunca viu e nunca verá um aborto como esse…cuidado…) mas não desiste de seu propósito. O final é feliz. Acredite se quiser. E eu só percebi isso horas depois do filme terminado. Hehehehe.
Podem dizer que eu enlouqueci, mas se arrancarmos a “pele” de filme de horror que cobre essa história (tem assassinatos, tem tapas na cara, tem facadas, sangue o tempo todo, tentativas de suicídio, risos incontroláveis, gritos inúmeros e atitudes incompreensíveis), encontraremos um drama familiar, sobre a mais violenta das crises. Aquela que todo casamento enfrenta, mais cedo ou mais tarde, e que a gente pode escolher passar singela ou, literalmente, visceralmente.
Eu poderia escrever horas, linhas e mais linhas sobre esse filme, mas vou terminar assim: é um misto de Quem tem Medo de Virginia Woolf? com O Exorcista. E é o filme da minha vida. Com final feliz. :^)

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6 thoughts on “Possessão – o filme da minha vida

  1. vi este fimlme adolescente, agora aos 41 consegui compra-lo em dvd, vou tentar entende-lo, na época não consegui, mas o filme é muito intenso e não dá para esquece-lo.

  2. Adjani !
    vi o filme na minha cidade natal há muitos anos…e fiquei super impressionada.
    vou ver se encontro o dvd aqui em sumpaulo…

  3. entendo tudinho o que vc sentiu e os insights depois de assistir ao filme, mas por enquanto eu não consegui passa da fase do vômito, hehehehe!

  4. ai, mesmo sendo suuper medrosa, fiquei louca pra ver o filme, inda mais com todas essas mensagens subliminares…
    olha, vou linkar esse aqui também, ok?

  5. Moacir, acho que vimos o filme sob a mesma óptica. Comigo também a estranheza se dissipou depois de ficar algumas horas pensando sobre as transformações a que as relações ao buscar uma sobrevida. Se vai dar certo, sabe Deus. Mas é uma tentativa. Abração.

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