Ver esse filme não foi moleza. Ele fez parte da versão de inverno do Latin American Film Series, organizado pelo Hemispheric Institute on the Americas, do departamento de História da UC Davis. Toda sexta-feira eles exibem um filme de algum país latino. Fui ver um argentino [que ainda vou comentar] e esse mexicano, que focaliza a trama na horrorosa guerra civil em El Salvador nos anos 80. Foi duro, passei os noventa minutos do filme tensa, incomodada.
Saímos do filme e pedalamos alegremente nossas bikes pelo campus da universidade à noite, tagarelando e rindo, combinando de beber um vnho num creperie em downtown. Comemos, bebemos, conversamos e rimos muito num grupo com africanos, portugueses, americanos, franceses e brasileiros. Fui para casa acompanhada de uma amiga, as duas na bicicleta falando da vida, uma cena totalmente Spielberg, bucólica.
Em casa entrei no chuveiro e as vozes inocentes vieram me assombrar. Lembrei daquele menino de dez anos que ficou amigo do meu filho, logo que chegamos no Canadá. Ele era salvadorenho, a família exílada de guerra tinha uma vida muito recatada. Uma vez o Gabriel me disse que o amigo tinha trauma de guerra, que se assustava com tudo, com qualquer barulho, tinha pesadelos à noite, acordava apavorado. Vendo Voces Inocentes, do mexicano Luis Mandoki, deu pra entender bem porque.
O filme mostra uma família, mãe e três filhos, vivendo numa favela no meio do fogo cruzado entre militares e guerrilha. A trama tenta alternar a candura e inocência da infância, dos amigos, primeiro amor, com os horrores da guerra, o constante tiroteio, os mortos, e a ameaça de recrutamento imposta aos meninos, que eram levados pelo exército assim que completassem doze anos. O flme é de transformar estômago em pedra, mas fiquei com uma sensação bem desconfortável de que tinha sido submetida à noventa minutos de propaganda maniqueísta adocicada com carinhas bonitas, lágrimas e cenas dramáticas. No filme os guerrilheiros são os heróis bonzinhos, o que na minha percepção simplesmente não é possível… Guerrilheiro bonzinho é um oxímoro. E numa guerra NÃO HÁ NINGUÉM BONZINHO. Fui ler sobre o filme no IMDB e lá tem um depoimento de um salvadorenho exílado no Canadá que diz que o filme não mostrou o outro lado – as atrocidades dos guerrilheiros, que eram tão horriveis tanto quanto as do exército. Acho que já passei da fase de acreditar em propaganda de esquerda. Encaro certos maniqueísmos com muito ceticismo e desconfiança e simplesmente não acredito que uma guerra civil tenha um propósito romântico. Mesmo assim meu coração pesou, porque as guerras são repugnantes, revoltantes e inaceitáveis. É isso!

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