Quando concluí meu curso de graduação em Artes Visuais, há “alguns” anos atrás, meu foco de estudo foi, como era de se esperar, o cinema. Ao investigar a presença da comunicação visual em filmes, tracei um paralelo entre a capa de um livro ou o pôster de divulgação de um filme, com os créditos iniciais dos filmes. Assim como a capa e o pôster, quando bem feitos, a gente pode ter uma idéia, uma impressão ou noção, do que se trata aquela obra. No caso dos créditos a mesma coisa acontece.
E eu adoro analisar essas aberturas, descobrir o máximo possível sobre o que será a história e já me preparar para o que está por vir. É claro que tem filmes em que nada disso acontece, pois aparece uma tela preta com letras brancas e só. Os créditos nos filmes do Woody Allen, por exemplo, são todos assim.
Alguns filmes apresentam créditos misturados com as cenas iniciais onde a história ganha uma força imediata. A ação em si nos atrai mais a atenção do que os nomes na tela, como é o caso de Touch of Evil de Orson Welles, com sua magnífica abertura de um longo plano seqüência.
Em outros casos a estrela (ator ou atriz) do filme é o grande foco da abertura e seu nome aparece geralmente ao lado de sua imagem, com grande destaque. Vários exemplos desse tipo podem ser lembrados como Rebel Without a Cause de Nicholas Ray, Breakfast at Tiffany’s de Blake Edwards ou Sweet Bird of Youth de Richard Brooks. A presença dos astros James Dean, Audrey Hepburn, Paul Newman e Geraldine Page, respectivamente, é o grande destaque nos créditos desses filmes, como vemos no exemplo abaixo.

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As melhores aberturas, entretanto, a meu ver, são aquelas planejadas por comunicadores visuais, artistas gráficos como o MESTRE Saul Bass, preferido pelo outro mestre Alfred Hitchcock e por Martin Scorsese e Maurice Binder, criador da famosa abertura dos filmes de James Bond e tantos outros como Charade, de Stanley Donen, Repulsion, de Roman Polanski e um que eu gosto particularmente que é Plein Soleil, de René Clément.
Nesses casos o olho treinado descobre uma série de detalhes e “pistas” sobre a história e tem o prazer de degustar o que eu chamo de “aperitivos visuais”, como uma epígrafe que ilustra e instiga a leitura de um texto.
No caso de Plein Soleil vemos uma animação na tela que se transforma em um nome, uma assinatura. Essa assinatura se transforma em outras assinaturas, até que passamos a ver cartões postais da cidade de Roma. O crédito final, dos produtores, é feito por uma mão que assina seus nomes em um cartão postal. A cena seguinte é Alain Delon e Maurice Ronet numa mesa de um café ao ar livre, em Roma, brincando de copiar assinaturas em cartões postais.
Assim como as assinaturas nos créditos se transformam em outras, a personagem de Delon se transformará na de Ronet com ajuda, claro, da sua habilidade em forjar assinaturas. Além de já sabermos disso, também temos a informação de que o filme será passado em locações turísticas e paradisíacas em Roma e outras localidades na Itália. Não é perfeito? Atenção também para as cores quentes que nos remetem a momentos calorosos, intensos e – como não pensar nisso? – sangüinolentos (embora não vejamos uma única gosta da sangue o filme inteiro).

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One thought on “Aperitivos Visuais

  1. Putzgrilo, MOa
    Um dos mais belos posts que já vi/li.
    Que perda a minha de não ter visto ainda.
    Esse é *O* grande filme com a obra de Patrícia.
    E quanto às aberturas eu tinha as minhas preferidas.
    Os filmes de Tashlin têm aberturas deliciosas.
    Saul Bass é *o* rei.
    Letras e tipos são fortes elementos visuais, mesmo.
    Um beijão

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