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Dependendo da hora, certos filmes só tem a utilidade de me colocar nos braços de Morfeu. Alguns eu realmente não me importo de dormir no meio, não ver o fim. Um filme com o Frank Sinatra e a Doris Day já tinha um propósito totalmente sonífero. Quando eu saquei que Young at Heart era o remake do encantador Four Daughters, de 1938 com a Priscilla Lane [e suas três irmãs de verdade] e o fabuloso John Garfield, nem me preocupei mais em manter os olhos abertos.
Foi o único filme que Frank “Canastrão” Sinatra e Doris “Barbie” Day fizeram juntos. Eu consegui ver até a parte onde Gig Young abre a porta e Frank está de costas, se vira só pela metade, fica de perfil. Me digam, quem que fica de costas pra uma porta onde acabou de fazer toctoc e depois encara o recepcionista de perfil?
Em Young at Heart são apenas três irmãs, as três loiras, com bochechas rosadas e lábios carnudos vermelhos. Além de lindas e esculturais, com cinturas de vespa, as irmãs são talentosas e tocam o piano, o violino, a harpa e a Doris canta, como um passarinho comendo melado. Uma família feliz, com as filhas, o pai maestro e a tia velha, manca e cansada que rala o coco na cozinha e só consegue sorrir com a boca torta e levantar as sobrancelhas para aprovar ou desaprovar o que os outros fazem ou falam—pobre Ethel Barrymore, que estava dando suas últimas gotas de suor para Hollywood.
Fui vendo o filme com o som relativamente baixo, com o agravante do ventilador que fazia um barulhinho atrapalhante. Essa é uma boa maneira de observar outros detalhes, sem se prender ao que os atores estão falando. Doris cantou um par de músicas, socorreu um cachorrinho de uma ninhada de nove que acabara de nascer. Essa cena merecia levar tomatatas do povo do PETA, porque a fulana remove o cachorrinho recém-nascido da mãe, e enquanto os outros mamam e sobrevivem, o que ela mantém nas mãos e fica acariciando enquanto flerta com o bananão do Gig Young parece estar se desmilinguindo e no final da cena parece estar mais morto que vivo.
Ser Doris Day na década de 50 não era fácil. Como que ela mantinha aquele cabelo preso impecável até na hora de dormir? E como conseguia dormir com um pijama amarelo pastel fechado até o pescoço, cheio de boões e com um sutiã de bojo por baixo? Vejam bem, pijama amarelo pastel, na cama verde pastel, com a cúpula do abajour rosa pastel. E ela de batom vermelho e bochechas rosadas.
Gostei de algumas roupas das irmãs, mas nunca que eu iria suportar aquela cinturinha apertada. Na cena da praia, quando a Doris corre pela areia, cavoca buracos com as mãos pra pegar marisco e leva uns três caldos, antes de ganhar uma pulseira e um abraço do bolha Gig Young, ela parece mais real. A familia do-ré-mi passa o dia todo na praia, uma das irmãs bordando, a tia velha imóvel numa cadeira só levantando e abaixando as sobrancelhas. No final, já anoitecendo, eles tostam cubinhos de marshmallows na fogueirinha e a Doris Day canta, enquanto as outras irmãs demonstram que a invejam e são infelizes.
Frank Sinatra já tinha entrado na casa de perfil e cantava qualquer música lá, com um cigarro torto na boca, enquando a Doris num vestido armadura branco e azul fazia uns comentários que eu não pude ouvir. A partir daí me enchi e virei minhas costas pra tevê, fechei os olhos e dormi.

One thought on “Young at Heart

  1. adorei esse texto. nossa, como vc escreve bem!! e olha que eu sou mais de olhar do que comentar, mas eu nao poderia deixar de elogiar. o filme é ruim, eu ja vi. hehe, passou na TCM uma vez. mas é engraçado de ver essas coisas. tem um da Shirley Mclaine que vai no mesmo ritmo, um que ela quer casar a todo custo. enfim, filme para passar o tempo. grande abraço

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