Place Vendôme subestimada

Quando recebi a “incumbência” do amigo blogueiro Demas de listar os cinco filmes mais subestimados em minha opinião, fiquei com uma pulga atrás da orelha: o que seriam filmes subestimados? Filmes que eu gosto e que a crítica não gosta? Ou filmes que eu gosto e poucas pessoas apreciam? E como saber se esses filmes são pouco apreciados ou não? Fizeram sucesso, ganharam prêmios, venderam bastante? Difícil responder isso tudo.
Aí pensei em um dos meus filmes prediletos, que sempre foi taxado como “menor”, mas que de uns anos pra cá, finalmente, foi reconhecido e é bastante admirado por críticos e pelo público em geral. Estou falando aqui de Marnie, do Hitchcock, filme já bastante citado no Cinefilia. E já que ele foi “resgatado” nos últimos tempos, resolvi deixá-lo fora da lista.
Demorei para chegar a uma lista de cinco e o filme sobre o qual eu mais queria escrever estava um bocado distante da minha memória. Esperei uma amiga ir a Paris e trazer de lá o DVD para mim. Place Vendôme, dirigido por Nicole Garcia em 1997 e estrelado pela magnífica Catherine Deneuve, é o filme mais subestimado das últimas décadas, na minha humilde opinião.

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A história gira em torno do mundo das jóias, seus artesãos, vendedores, compradores e ladrões. A Place Vendôme do título é um dos lugares mais chiques de Paris onde ficam o Hotel Ritz, a Maison Chanel e também Cartier e várias outras joalherias famosas. As vitrines são enfeitadas com belíssimos diamantes e pedras preciosas e o filme é uma viagem por trás dessas vitrines.
Deneuve faz o papel de uma mulher casada com um poderoso joalheiro que, através de sua morte, tira a viúva de um estupor alcóolico e melancólico de anos. Ela tentava afogar na bebida as memórias de uma grande traição no seu passado e voltar à ativa através de diamantes roubados (que o marido deixa para ela), a faz retomar o caminho perdido. O filme não tem final triste nem feliz. É bastante realista e, como todo bom filme europeu, a gente fica com gosto de quero mais, pensando naqueles personagens por horas, após o final do filme.
Nunca vi Catherine Deneuve tão vulnerável e forte ao mesmo tempo. As rugas a deixaram menos distante, eu acho. Seus gestos não parecem ser estudados e sim sentidos de fato. É de se estranhar que ela não tenha sido indicada para mais prêmios, embora tenha recebido o prêmio de interpretação feminina no Festival de Veneza de 1998.
Mais uma razão para esse filme ser considerado subestimado: a edição nacional em DVD já se esgotou há muito tempo e não se encontra mais em lugar algum. Tive que comprá-lo na França. Felizmente tem legendas em português (de Portugal…) pois meu francês não tá com essa bola toda.
Por que um filme tão bom como esse não é mais valorizado, divulgado, apreciado e visto? Talvez por não ser muito “fácil”. Não é entretenimento. Não é de leitura fácil, onde todos os detalhes são explicados e o final não é amarradinho, como na maioria dos filmes de mais sucesso. Mas para mim o bom cinema é o que nos emociona, nos faz pensar, nos instiga a criar e nos ajuda, de alguma forma, a transformar nosso cotidiano. No caso de Place Vendôme é uma lição a ser estudada, atos passados que nos assombram e as oportunidades que temos de revivê-los ou superá-los.
Na minha lista de grandes filmes subestimados, cito cinco títulos:
1. Breakfast on Pluto (Café da manhã em Plutão), do Neil Jordan, com Cillian Murphy num desempenho inacreditável e tocante;
2. The Dreamers, o filme do Bertolucci sobre três jovens em Paris em 1968 que deveria ser o filme predileto de todo mundo de tão DELICIOSO que é e a maioria das pessoas torce o nariz pra ele (não é, Fer???);
3. The French Lieutenant’s Woman, a MELHOR atuação de Meryl Streep, ao lado do também perfeito Jeremy Irons. Um filme esquecido sobre o qual ninguém mais fala, mas que nunca sai da minha lembrança;
4. The Portrait of a Lady. Acho que TODOS os filmes da Jane Campion são subestimados. Mas esse eu vi há pouco tempo e ainda me assombra.
5. Sweet Bird of Youth. Das peças de Tennessee Williams essa é uma das menos badaladas, mas acho que é a minha predileta. E a versão de 1962, embora censurada e “mutilada” tem Geraldine Page ARRASANDO e Paul Newman no auge do charme e magnetismo. É ver pra crer. Mas o DVD também não se acha por aqui, só nos Estados Unidos…

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6 thoughts on “Place Vendôme subestimada

  1. Moa, não sei por aí, mas por aqui (onde se estuda cinema e literatura), The Dreamers é mega-cultuado. Eu chego a achar um exagero – gosto do filme, mas não o acho tão sensacionalmente bom.
    Um beijo! 🙂

  2. Eu queria apenas registrar para o Moacir
    que estou sendo fan do seu Blog
    me identifico muito com ele;
    e tenho uma pergunta, pq vc parou de escrever lá?????????
    saudades de saber notícias de sua filhota.

  3. Moa,
    que lista, hein?! Valeu a espera.
    Dos 6 citados, vi 4 (Place Vendôme, Os sonhadores, A Mulher do tenente francês e Retrato de uma mulher) e são todos muito bons mesmo. E já anotei os 2 restantes para ver “as soon as possible”. Abração

  4. Vou fazer comentário no meu próprio post. Hehehehe. Mas não é sobre o post, é sobre as letras. Fer, vc aumentou a fonte e tá legal, mas acho que as linhas estão muito grudadas. Vc tá achando a leitura do site confortável? Dá pra dar uma “esparçada” nas linhas? Eu não sei fazer isso… :^(
    (se soubesse faria sem nem pedir autorização. Hehehehehe)
    Beijocas

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