Suspension of Disbelief

Essa expressão, criada pelo poeta e pensador inglês Samuel Taylor Coleridge é o que nos faz assistir filmes fantásticos e aceitá-los como possíveis em troca da emoção e encantamento que sentiremos. A tradução literal da expressão seria “suspensão da descrença” e pode-se acrescentar ainda o fato de que é algo voluntário, não imposto. Tem gente que não consegue ver um filme da série James Bond sem reclamar o tempo todo das “mentiras”. Provavelmente são pessoas que não se entregam à fantasia e, ao criticarem tudo o que não é “real”, acabam por não se envolverem tanto na história. Talvez até queiram pedir o dinheiro de volta, ao término da sessão.
É por causa dessa “suspensão da descrença” que eu consigo ver a última versão de King Kong, várias e várias vezes, e aceitar que naquela ilha perdida existia um gorila gigante, que um povo primitivo lá habitava e oferecia ao gorila jovens em sacrifício e que um dia ele se apaixonou por uma bela atriz loira que chegou até lá ao azar, levada por um diretor de cinema maluco que tinha um mapa velho e informações que denunciavam a existência do gorilão. É também por essa vontade de querer aceitar tudo isso que eu me “contorço” de emoção, no sofá de casa, ao ver a briga entre Kong e três enormes dinossauros. Embora os efeitos especiais não sejam tão bons quanto os de Jurassic Park, o enredo de King Kong é mais envolvente e mais “romântico”, afinal o gorila se apaixona pela mocinha e faz de tudo para salvá-la e ainda fica “p da vida” quando ela tenta fugir dele.
Bom, depois de duas horas de filme eu já não questiono mais nada. Ainda falta uma hora e eles agora estão em Nova York. O gorila foge do teatro e em meio ao caos que se forma ele encontra, naquela cidade infestada de gente, a loira dos seus sonhos. Ela caminha até ele, pois sabe que é a ela quem ele procura. E só ela poderá acalmá-lo. Eles fogem para o Central Park e dançam no lago congelado, brincando de patinar no gelo. Seria patético se não fosse poético (eu sei, vocês vão pensar que troquei os adjetivos de ordem, mas eu acho essa cena suuuper poética).
Como eu já sei que o gorila morre e que a mocinha não terá um final feliz ao lado dele, eu começo a chorar quando ele chega ao topo do Empire State Building. Só consigo parar quando ele cai e os créditos surgem na tela. Essa tal de “suspensão da descrença” é uma coisa MUITO forte mesmo, não tem como explicar de outra forma. Senão vejamos: a mulher, magrinha e com um vestido branco, com os braços de fora, sai à rua sem um casaco em pleno inverno novaiorquino. Não espirra, não treme de frio. E nem de medo do macaco. Sobe com ele no alto do prédio e lá em cima tem uma leve brisa em seus cabelos.
Eu poderia imaginar o bafo do King Kong na cara da jovem loira. Eu poderia pensar no absurdo que é supor um sentimento entre os dois. Poderia questionar a capacidade dele em pular lá no topinho do Empire State e derrubar dois aviões sem perder o equilíbrio. Poderia “até” duvidar que uma mulher fosse sair correndo atrás de um gorilão daqueles para protegê-lo. Mas… uma vez que aceitei que ele existia na tal ilha, que ele se apaixonou por ela, que enfrentou dinossauros por ela, que foi capturado e levado para NY e que subiu até o alto do arranha-céus com ela… bem… aí só me resta chorar por sua morte. Até as lágrimas rolarem rosto abaixo.
Depois tem gente que diz que não gosta de cinema. Por que será?
kingkong+ann.jpg

6 thoughts on “Suspension of Disbelief

  1. Eu tenho uma relação muito interessante com King Kong.Foi o primeiro filme que assisti na telona.E te digo uma coisa, choro no final de todas as versões :o)

  2. Moa…
    Concordo em gênero, número e grau!!
    Aquele que vai ao cinema e se indigna com as iverossimilanças, não se entregou ao deleite desta arte, e não em nem noção do que está perdendo!
    Xro…
    Rube

  3. Moa,
    Adorei o post!
    Não conhecia a expressão, mas já me vi inúmeras vezes explicando o seu sentido a alguém que não entra no clima do filme…agora meus argumentos serão mais embasados…risos.
    Um beijo grato!

  4. Pois é, Fer. Eu sabia que você se identificaria de alguma forma com esse post pois você me parece ser a exceção à regra, já que eu sei que você questiona um monte de coisas nos filmes e ainda assim consegue se envolver. Ou melhor… será que você se envolve ou se diverte? Eu acho que sou mais “bobo” e me entrego fácil, fácil. hehehehe.
    E, claro, enquanto escrevia o post não consegui deixar de pensar em você me falando da Tippi Hedren que passa dois ou três dias inteiros com a mesma calcinha, embora tenha comprado uma camisola no armazém de Bodega Bay pra passar a noite. Hehehehe. Eu sempre choro de rir quando penso nisso!
    Beijocas!

  5. Moa, adorei esse post! 🙂
    Eh isso mesmo, temos que colocar toda a nossa parte racionalizante em suspensao pra poder assistir filmes. Mas eu confesso que analiso todas as impossibilidades que a historia me apresenta. Tah certo que faco esses questionamentos no silencio do meu pensamento e essa bilolice tola nao atrapalha o meu divertimento. Mas eu nao deixo de observar que aquilo nao pode ser, que nao aconteceria assim ou assado no mundo real… Bom, o mundo real fica bem longe dos filmes, neh? Por isso mesmo a Tippi Hendren pôde remar de tailler verde justinho e impecavel, sem rasgar nada, suar ou se descabelar. :-))
    beijaoo,

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *