não acreditei, mas chorei

Na hora do meu almoço eu às vezes ligo a tevê e assisto uns dez ou quinze minutos de algum filme, se estiver passando algum que valha a pena assistir. Isso ajuda a quebrar meu dia, diluir o tédio da rotinazinha do dia. Na maioria das vezes eu pego o final de algum filme e já até perdi hora, voltando pro trabalho, porque precisei ver até o último segundo de algum final estupendo. Desta vez foi os últimos dez minutos de Dark Victory, um tear jerker de 1939, estrelado pela rainha do dramalhão—Bette Davis.
Peguei a partir da cena em que ela, com um tumor no cérebro e fumando, vai saltitante ao encontro do marido médico [George Brent] e quando volta ao jardim para futucar a terra e plantar bulbos de flores ao lado da melhor amiga [Geraldine Fitzgerald] que também pratica a jardinagem enquanto fuma um cigarrinho, nota que o dia está escurecendo mais cedo. A escuridão repentina é na verdade O SINAL de que ela vai ficar cega e morrer. Dali em diante é puro drama, com a melhor amiga vertendo baldes de lágrimas—e consequentemente eu também verti algumas, com a perspectiva da morte da heroína. E que heroína! Ela sacrifica seus últimos minutos de vida para que o marido não sofra vendo-a morrer. Consegue que ele vá para New York sem ela, caminha capenga pela casa, já que a cegueira é galopante, e faz sinais para a melhor amiga, que neste ponto da história só faz caretas de dor e chora, para que ela mantenha o segredo. Primeiro ela planta os bulbos das flores que são as favoritas do marido, depois subindo as escadas em direção ao seu leito de morte, ela se despede dos cachorros enquanto a empregada torce as mãos juntas em sinal de sofrimento e tristeza. A heroína deita na cama e avisa a empregada—não quero ser perturbada. O close vai se desfocando e The End.
Eu, que não tenho o dom que o Moa tem de suspender as descrenças enquanto assiste à um filme, penso descontroladamente em todas as inviabilidades da história. Primeiro como pode uma paciente que sabe que está com câncer no cérebro FUMAR? Depois como é possível ela ficar cega total em questão de minutos? Depois que palhaçada foi aquela de dar uma de mártir e mandar o marido embora para não vê-la morrer? Qualquer ser humano normal iria querer ter a pessoa amada ali, dando apoio e carinho, nos últimos minutos. E ela morreu com as mãos sujas de terra, depois de plantar os bulbos? Eu que queria morrer assim, em questão de meia hora—pá-pum, sem sofrimento, sem quimioterapia, sem cair cabelo, sem ficar demente, sem babar, sem feder, sem ficar parecendo uma bruxonilda às portas da morte. Porque a morte é FEIA e a Bette morrendo está linda nesse filme. Um drama, totalmente inverídico, mas bom de ver pra chorar e desopilar os orgãos tensos.
*minha primeira impressão cética de Dark Victory AQUI.

One thought on “não acreditei, mas chorei

  1. HAHAHAHAHAHAHAHA!!!!!!!
    FER, vc me mata de tanto rir!!! Acabei de ler esse post para minha irmã e para o Lau e minha irmã rolou de rir e disse que conhece um psicólogo que está com câncer no pulmão e também não para de fumar. E estamos em 2008, quase 2009, SETENTA ANOS após esse dramalhão maravilhoso e esquisito da nossa amada e idolatrada, salve, salve, Bette Davis.
    Eu confesso que não gosto MUITO desse filme. Acho tudo muito esquisito também, mas acho que vou revê-lo para ver o que sinto. Será que eu vou chorar ou rir, lembrando de você? Será que a suspensão da descrença vai funcionar dessa vez?
    Mas hoje vou ver meus Paul Newmans que chegaram! OBA!!
    Beijocasssss

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